terça-feira, 28 de julho de 2015

Dramas da Obsessão - A Severidade da Lei - Capítulo II

Yvonne do Amaral Pereira
Ditado pelo Espirito de Adolfo Bezerra de Menezes

No início deste século, sendo eu já desencarnado e exercendo atividades médicas da Espiritualidade para as criaturas ainda encarnadas, fui encarregado de um serviço de assistência a uma paciente do sexo feminino, localizada em pitoresca e linda cidade do Estado do Rio de Janeiro, banhada pelas águas sempre agitadas e frescas do Oceano que fertiliza a terra benfazeja, esse Atlântico imponente e formoso. Encontrava-me então em certa reunião mui solene do Espaço, durante a qual se prestava culto ao Criador com os pensamentos conjugados em preces e os corações dilatados em haustos de vibrações amorosas, em busca de Suas bênçãos protetoras a prol dos nossos Espíritos necessitados de inspiração para o desdobramento dos serviços que nos estavam afetos. De súbito, porém, quando mais dúlcida era a minha elevação mental no enternecimento da oração, definiu-se em meu ser um estremecimento forte, como se vigoroso contacto elétrico comunicasse às minhas sutilezas de compreensão uma ordem provinda de superiores camadas hierárquicas, e um doce murmúrio, mavioso como o alento das almas santas em orações augustas ao Deus de Amor e de Bondade, sussurrou à minha mente muito atenta:

— “Na rua de S... Nº 3, na Cidade de XXX, no Estado do Rio de Janeiro, alguém se debate em desesperações para o momento sacrossanto da Maternidade. 

É uma pobre alma delinqüente de um passado de infrações graves, dentro do mesmo círculo de responsabilidades... a qual, agora arrependida, entra num grande e doloroso resgate para o apaziguamento da consciência ainda conturbada pelos ecos do Pretérito... Será necessário socorrê-la para que não sucumba antes da época prevista pela Lei, porquanto, sucumbir agora absolutamente não convirá aos seus interesses espirituais. Clama pela intervenção dos poderes celestes no melindroso momento, em brados de oração fervorosa, um coração singelo e obediente a Deus, sob os auspícios de Antônio de Pádua, servo de Jesus Nazareno, e que junto da enferma se encontra. Tu, Adolfo, és médico e és cristão. 

Necessitas do trabalho honroso do amor ao próximo para a edificação do teu Espírito à face de Deus! Vai, pois! Atende ao aflito chamamento. Socorre a pobre alma pecadora que se arrependeu e deseja ressurgir para o Dever. Vai! Antônio de Pádua velará por ti e por ela, em nome do Mestre Nazareno. E que o Criador vos envolva a todos na Sua paternal demência.”

Incontinente atendi, preferindo abandonar a meio a reunião de comunhão com o Alto para continuá-la após, ao lado daqueles que sofriam.

... E ingressei nas pesadas brumas da atmosfera terrena, desviando-me para as latitudes brasileiras, onde, de preferência, exerço ainda hoje as atividades psíquico terrenas. 
O chamamento, com efeito, fora dirigido a Antônio de Pádua, grande mentor espiritual e reencarnação de um devotado apóstolo do Divino Mestre, Espírito universal, portanto, venerado, direta ou indiretamente, como apóstolo de Jesus que foi, por toda a cristandade, como sendo um dos eleitos da chamada Corte Celeste. 

E, realmente, é, Antônio de Pádua, chefe de falange beneficente e amorosa da Espiritualidade, que se multiplica em ações caritativas e sábias por várias latitudes da Terra e do Invisível. Não pertenço, como não pertencia então, a essa doce falange que também integra crianças angelicais e lindas como os próprios lírios que carregam, lírios que, no Espaço, as tornam reconhecíveis como elementos, ou pupilas, de Antônio, Espíritos evoluídos que, no Além, sob formas perispirituais infantis, rodeiam o ilustre varão celeste, obedecendo-lhe às ordens no setor beneficente (29). 


Todavia, o setor de trabalho pertencia a Mentores aos quais era eu subordinado. A recomendação viera de Antônio de Pádua, Espírito universal... a ordem chegou a mim com a rapidez que poderá desenvolver um pensamento humano em preces tão angustiosas quanto fervorosas e a resposta do Céu, através de uma ordem vibratória ainda mais veloz.

Era madrugada. As brumas fortes do Oceano, cortejadas por um vento áspero do mês de Agosto, despejavam-se sobre a cidade, que se amortalhava toda de um longo sudário de cerração, enquanto o frio álgido e úmido da beira-mar fazia tiritar os míseros sem abrigo tépido e os pobres cães sem proteção, tão sofredores quanto aqueles. E um silêncio triste e constrangedor, como soem ser o dos locais onde se aglomeram almas penitentes para os doridos testemunhos da expiação, em desagravos à Lei ofendida no pretérito, estendia sobre o casario colonial a sombra das amarguras que se entrechocavam sob seus tetos.

Procurei a rua de S e encontrei-a facilmente, pressuroso... porque, da Espiritualidade, os fachos da caridosa vigilância de Antônio incidiam sobre meu pobre Espírito, aclarando-me os caminhos e as ações a realizar, réstias de luz argêntea quais faróis norteadores a serviço da causa sublime do Amor.

E corria o ano de 1910...

Ao ingressar no domicílio visado, reconheci tratar-se de habitação de jovens recém-casados. Móveis e adornos acusando modesto bom gosto da mulher, capricho e sutis delicadezas, como bordados finos, rendas mimosas e pinturas graciosas, que as mãos amorosas de uma esposa recente ali haviam distribuído para maior encantamento das horas consagradas ao doce enleio do lar. Mas também compreendi, pesaroso e emocionado, ó meu Deus! que a desventura assinalara aquele afável ninho conjugal, estabelecido, havia onze meses apenas, pelas esperanças de um varão e os meigos afetos de uma donzela, para que graves acontecimentos se desenrolassem em seus perímetros, exigindo de ambos testemunhos tão ásperos, provações e resgates tão pronunciados e comunicativos, que marcariam a vitória de uma redenção para ambos ou reincidência com agravantes, nos campos dos deslizes morais, para um e outro.

Na sala de visitas, onde flores vicejavam numa jarra de porcelana, sobre um piano de carvalho polido, um jovem de vinte e seis anos de idade, trazendo bem tratados bigodes, pretos e perfumados, como exigia o requinte da moda masculina de então, a tez muito branca e fina, cabeleira sedosa e negra, estatura elevada e majestosa, um belo tipo varonil, enfim, capaz de atrair atenções à primeira vista, sentava-se numa cadeira de balanço, tipo “austríaca”, e chorava, o rosto oculto entre as mãos, os braços apoiados sobre os joelhos, atitude indicadora de desânimo profundo. Numa câmara ao lado, encantadora mulher, acusando aproximadamente trinta e cinco primaveras, apresentou-se à minha vista, prostrada de joelhos, as mãos cruzadas em súplica, orando com fervor tão comunicativo e eficiente que por todos os recantos da habitação um suave balbucio de preces repercutia, predispondo o ambiente às inefáveis influências das esferas do Amor, para tanto valendo-se de vibrações harmoniosas conducentes a Deus. 

Era uma alma de crente, idealista e generosa, que soubera orientar a fé que adotara, cultuando a Divindade Suprema, para diretrizes mui meritórias dos planos da Espiritualidade. Chamava-se Sara. Mas os familiares e amigos mais íntimos tratavam-na por Sarita, modo gentil de lhe demonstrarem uma simpatia que ela soubera conquistar por entre amabilidades constantes.

Ao primeiro exame reconheci tratar-se de uma adepta da crença católica romana, pois, sobre a mesa, diante da qual se conservava ajoelhada, altar improvisado pela boa vontade que a assistia em qualquer emergência, uma imagem de Antônio de Pádua, tão usada pelos crentes do Catolicismo, se destacava. Mas, a par de tal particularidade, também nessa jovem crente entrevi a qualidade do cristão sincero, dado que uma coluna luminosa, serena, vertical, límpida, firme, argêntea e bela elevava-se do seu coração pelo ardor da prece, à procura da proteção do Alto.

Ora, essa coluna, traduzindo propriedades magnéticas poderosas, fora que provocara a atenção da Espiritualidade Superior e a respectiva ordem, por mim recebida, para urgentemente partir em socorro a uma parturiente em perigos extremos. Eu me encontrava, portanto, em presença de um formoso fenômeno de telepatia religiosa, no que ele possui de mais angelical e comovedor, pois que era uma mulher, uma jovem viúva, simples e modesta criatura terrena, que, fortalecida pela sua confiança de crente, atirava os próprios pensamentos pelas profundidades do Incognoscível, numa prece espontânea qual confidência amorosa, na súplica de uma assistência suprema dos Céus para um ser amado que sofria.

Atentei de boamente nas expressões da sua rogativa e ouvi que diziam assim os sussurros benfazejos que se entornavam pelo ambiente em cantilenas piedosas:

— Santo Antônio de Pádua, meu bom Senhor e Protetor: — Pelo amor do nosso Criador Supremo e sob os auspícios do Senhor Crucificado, eu vos suplico piedosa intervenção da vossa assistência para minha muito querida amiga Angelita, que neste momento se encontra em perigo de morte. Santo Antônio de Pádua, socorrei-a, pelo amor de Jesus! 

E como outrora levantastes do leito de morte tantos enfermos, reintegrando-os no gozo da boa saúde, levantai também a pobre Angelita, para que maior seja a glória de Deus Eterno na pessoa dela! Todavia, que se cumpram as determinações do Onipotente — ou das leis da Vida, sejam quais forem! O que fizerdes em Seu santo nome, meu coração aceitará respeitosamente, como sendo a única destinação que conviria a Angelita, que tanto sofre! 

De qualquer forma, eu estarei ao vosso dispor para auxiliá-la a se reerguer para Deus e para a Vida! Angelita descrê da vida imortal, descrê do próprio Deus, arrastando-se em ímpia desatenção para com os deveres do crente. Se ela sobreviver ao dia de hoje, porém, prometo-vos, Senhor, envidar todos os meus esforços, mesmo os meus sacrifícios, para reconciliá-la com as leis divinas...

Interessado e comovido ante o que entrevi, dirigi-me à câmara conjugal, onde a chamada Angelita deveria encontrar-se... e o que então presenciei teria me acabrunhado e estarrecido o coração, se os obreiros do Invisível não fossem previamente preparados contra os choques emocionais que o carreiro das suas  atividades, na Terra como no Além, poderá provocar.


(29) A magnanimidade do Espírito de Bezerra de Menezes deu-nos a visão dessas crianças citadas. Representam crianças pobres, trajadas humildemente, pés descalços, cabelos despenteados. Não obstante, rebrilham de claridades celestes e sobraçam lírios. Dão-se as mãos para caminharem, mui gentilmente, e um luzeiro rosa envolve-as, distendendo-se em torno. Não nos foi possível conter as lágrimas diante de tão sublime quadro espiritual.

(Nota da médium).


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