segunda-feira, 6 de julho de 2015

Dramas da Obsessão - Conclusão - Terceira Parte - Capítulo I

Yvonne do Amaral Pereira
Ditado pelo Espirito de Adolfo Bezerra de Menezes


 ..."E meu Pai enviará outro Consolador"...

“Uma vez desencarnada — prosseguiu, finalizando, a entidade Protetora — após os primeiros meses de perturbações e desesperações, a família Aboab reuniu-se através das correntes espirituais de afinidades e simpatias, exceção feita de Ester, cujos pendores delicados e evoluídos a encaminharam naturalmente para agrupamentos apropriados ao seu grau de evolução; os demais permaneciam nos
próprios ambientes trágicos de Portugal, e, o que mais doloroso ainda se tornava, residindo, como dantes, no próprio domicílio que tanto queriam, agora de propriedade de Azambuja, que ardilosamente o requerera do erário público como pagamento de dívidas insolvidas pelos condenados. 

Revoltados e odientos, destituídos agora da confiança tradicional na crença ortodoxa em Moisés e os Profetas, em seus sentimentos apenas bruxuleava a ideia imprecisa de um Ente Supremo a quem não compreendiam, e ao qual, por entre gritos e blasfêmias, invocavam para que os inspirasse na vingança contra os destruidores da sua felicidade e de suas vidas carnais, isto é, Hildebrando de Azambuja, Fausto e Cosme de Mirandela, a Condessa Maria de Faro, que os entregara à Inquisição, e o espião João-José. 

E, efetivamente, durante um período quatro vezes secular, Timóteo Aboab e seus três filhos não concederam tréguas nem piedade aos seus antigos inimigos. Obsidiam nos, perseguem-nos desesperadoramente, desde então, impelindo-os a desastres e desgraças constantes, até aos dias presentes, quando tencionavam impelir todos eles, agora encarnados em Leonel e sua família, ao ato do suicídio, visto que seria esta a única modalidade de perseguição que àqueles não atingira até agora. E assim os obsidiam, quer se encontrem seus antigos algozes no Espaço, como desencarnados, quer estejam na Terra com novos corpos carnais, pois existem entre as duas pequenas falanges elos de atração tão poderosos, forjados pelo ódio e pelo crime, que impossível será a Hildebrando e seus sequazes se furtarem à presença de suas antigas vítimas, senão quando um arrependimento sincero,
resoluções sadias e remissoras os inclinarem a uma modificação geral no próprio modo de proceder. O antigo Rabino e seus filhos, no entanto, até ao presente não concordaram com um novo ensejo reencarnatório, a despeito das ocasiões valiosas que piedosos agentes do Bem, incumbidos pela Espiritualidade de aconselharem os caracteres rebeldes e endurecidos àemenda dos próprios erros, lhes têm proporcionado. 

Descrentes da misericórdia do próprio Ente Supremo, de cujas leis, que não compreendem, se ressentem pelo muito que sofreram; não acreditando em amigos e na própria justiça, uma vez que presenciaram em Portugal governantes cruéis cometerem iniquidades contra os próprios súditos, mancomunados com hordas assassinas que se proclamavam intérpretes da Verdade, as quais se valiam do poder adquirido à sombra da religião para a prática de todas as paixões vis; repelindo toda a possibilidade de instrução filosófica, fornecida pelos instrutores espirituais, para um trabalho de reforma e esclarecimentos em si mesmos, a fim de que a compreensão das soberanas leis da Criação os levasse à meditação, à conformidade e ao respectivo progresso, aliaram-se, no invisível, a falanges obsessoras que, endurecidas no mal, espalham os germens da desgraça por onde passam e encontram afinidades. 

E, por estes instruídos e adestrados, vêm, durante tão longo tempo, cobrando a seus antigos algozes todas as lágrimas que eles próprios e seus compatriotas choraram desde o primeiro dia em Lisboa até ao presente. De outro modo, os antigos inquisidores, Espíritos, com efeito, maldosos, afeitos ao erro, igualmente endurecidos, absolutamente não se preocuparam com a própria regeneração até ao momento, tratando de lealmente se voltarem para Deus a fim de resgatarem o mau passado através de realizações benfazejas, em vez de o fazerem na expiação dolorosa. 

Têm, ao contrário, revidado as hostilidades sempre que possível, quando desencarnados, muito embora o terror que nutrem pela presença de suas desgraçadas vítimas do século XVI, agora transformadas em algozes. E tais vêm sendo as batalhas verdadeiramente infernais que se desenrolam, desde aquela malsinada época, entre essas falanges litigantes, que Azambuja e seus acólitos, sentindo-se inferiorizados nos ardis para o revide das represálias, organizaram no invisível uma como associação defensiva contra os Aboabs... e, após mil tentativas e peripécias para se furtarem aos choques constantes daqueles, reencarnaram juntos, criando uma família carnal na Terra, por afinidades passadas, como unidos haviam sido no pretérito pela cumplicidade nos crimes praticados. 

E o fizeram nas seguintes posições de responsabilidades e descendência, automaticamente inspirados pela consciência culposa de cada um: Hildebrando de Azambuja — o inquisidor-mor e maior responsável pelo drama que desgraçou os Aboabs: Leonel, o “guarda-livros” suicida. 

— Condessa Maria de Faro — cúmplice de Hildebrando no caso Aboab, a qual precipitou a pedra de escândalo para a consumação do drama, com agravantes, drama que, se ela o quisesse, teria atenuado através do esforço da boa vontade: — a esposa de Leonel, cujo calvário de provações e lágrimas, nessa qualidade, formaria um volume. 

— Fausto e Cosme de Mirandela e João-José: —filhos do casal reencarnado como Leonel e esposa, sendo o último Alcina, a filha suicida de Leonel. Aterrorizado ante as vinditas atrozes movidas pelos Espíritos de seus antigos amos de Lisboa, o Espírito João-José preferiu ocultar-se numa encarnação de formas femininas, esperançado de que, assim disfarçado, não pudesse ser reconhecido. Enganou-se, porém, visto que sua própria organização psíquica atraiçoou-o, modelando traços fisionômicos e anormalidades físicas idênticos aos que arrastara na época citada. 

Encontrou-se, de outro modo, enredado em complexos físicos oriundos da mudança de sexo, anormalidades sexuais e mentais fáceis de fornecerem, pista de reconhecimento a um obsessor... terminando, como vimos de início, sob pressão perseguidora de Timóteo, que sistematicamente lhe apresentava, em quadros mentais, um recipiente com solução corrosiva, por qualquer pequena contrariedade doméstica, porquanto seu desejo seria apossar-se definitivamente desse Espírito, a fim de escravizá-lo à seita macabra dos vingadores judaicos existentes no invisível, em ação contra aqueles que durante séculos vêm intransigentemente perseguindo, sem razões plausíveis, os da sua raça, sob mil formas diferentes...”


26) João, capítulo 14, versículos 15, 16, 17 e 26.

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