sábado, 14 de janeiro de 2017

A Caminho da Luz - X - A Grécia e a Missão de Sócrates

A Caminho da Luz
Francisco Cândido Xavier
História da Civilização à Luz do Espiritismo
Ditada pelo Espirito
EMMANUEL


X
A Grécia e a missão de Sócrates

Nas vésperas da maioridade terrestre. - Atenas e Esparta. - Experiências necessárias. - A Grécia. - Sócrates. - Os discípulos. - Provação coletiva da Grécia.

NAS VÉSPERAS DA MAIORIDADE TERRESTRE

Examinando a maioridade espiritual das criaturas humanas, enviou lhes o Cristo, antes de sua vinda ao mundo, numerosa coorte de Espíritos sábios e benevolentes, aptos a consolidar, de modo definitivo, essa maturação do pensamento terrestre.
As cidades populosas do globo enchem-se, então, de homens cultos e generosos, de filósofos e de artistas, que renovam, para melhor, todas as tendências da Humanidade.
Grandes mestres do cérebro e do coração formam escolas numerosas na Grécia, que assumia a direção intelectual do orbe inteiro. A maioria desses pensadores, que eram os enviados do Cristo às coletividades terrestres, trazem, do círculo retraído e isolado dos templos, os ensinamentos dos grandes iniciados para as praças públicas, pregando a verdade às multidões.
Assim como a organização do homem físico exigira as mais amplas experiências da natureza, antes de se fixarem os seus caracteres biológicos definitivos, a lição de Jesus, que representa o roteiro seguro para a edificação do homem espiritual, deveria ser precedida pelas experiências mais vastas no campo social.
É por essa razão que observamos, nos cinco séculos anteriores à vinda do Cordeiro, uma aglomeração de inúmeras escolas políticas, religiosas e filosóficas dos mais diversos matizes, em todos os ambientes do mundo.

ATENAS E ESPARTA

Muitas teorias científicas, que provocam o sensacionalismo dos vossos dias como inovações ultramodernas, foram conhecidas da Grécia, em cujos mestres têm os seus legítimos fundamentos.
Em matéria de doutrinas sociais, grandes ensaios foram realizados, divulgando-se a mais farta colheita de ensinamentos; e quando meditamos no conflito moderno entre os Estados totalitários, fascistas ou comunistas e as repúblicas democráticas, devemos volver os olhos ao passado, revendo Atenas e Esparta como dois símbolos políticos que nos fazem pensar na plena atualidade da Grécia antiga. 
Os espartanos, sob o regime atribuído a Licurgo, nome que constitui apenas uma representação simbólica dos generais da época, vivendo a existência absoluta do Estado, não expressaram a mesma fisionomia da Alemanha e da Rússia atuais? A legislação de Esparta proibia o comércio, condenava a cultura; cerceando o gosto pessoal em face das bagatelas encantadoras da vida e do sentimento, decretou medidas de insulamento, maltratando os estrangeiros; instituiu a uniformidade dos vestuários, incumbiu-se da educação das crianças através dos órgãos do Estado, mas não cultivava a parte intelectual, abalando todo o edifício sagrado da família e criando, muitas vezes, o regime do roubo e da delação, em detrimento das mais nobres finalidades da vida.
Por essa razão, Esparta passou à história como um simples povo de soldados espalhando a destruição e os flagelos da guerra, sem nenhuma significação construtiva para a Humanidade.
Atenas, ao contrário, é o berço da verdadeira democracia. Povo que amou profundamente a liberdade, sua dedicação à cultura e às artes iniciou as outras nações no culto da vida, da criação e da beleza. Seus legisladores, que, como Sólon, eram filósofos e poetas, reformaram todos os sistemas sociais conhecidos até então, protegendo as classes pobres e desvalidas, estabelecendo uma linha harmônica entre todos os departamentos da sociedade, acolhendo os estrangeiros, protegendo o trabalho, fomentando o comércio, as indústrias, a agricultura. 
Lá começou o verdadeiro regime de consulta à vontade do povo, que decidia, em assembleias numerosas, todos os problemas da cidade venerável. E é fácil reconhecer aí o início das democracias modernas, que agora se organizam, nas transições do século XX, para a repressão de todas as doutrinas nefastas da força e da violência.

EXPERIÊNCIAS NECESSÁRIAS

Semelhantes experiências, no campo sociológico, foram incentivadas e acompanhadas de perto pelos prepostos de Jesus, respeitadas as grandes leis da liberdade individual e coletiva.
O mundo precisava conhecer a boa e a má semente, nas grandes transformações da sua existência. A exemplificação do Cristo necessitava de elevada compreensão no seio da cultura e da experiência de todos os séculos transcorridos e, sem embargo das lutas renovadoras que a antecederam no orbe, há dois milênios que o Evangelho do Mestre espera a floração do perfeito entendimento dos homens.

A GRÉCIA

Ao influxo do coração misericordioso do Cristo, toda a Grécia se povoa de artistas e pensadores eminentes, no quadro das filosofias e das ciências. É lá que vamos encontrar as escolas Itálica e Eleática, à frente do fervoroso idealismo de Pitágoras e Xenófanes, sem esquecermos, igualmente, as escolas Jônica e Atomística com Tales e Demócrito, nas expressões do mais avançado materialismo.
O século de Péricles, chegando a um apogeu de beleza e de cultura com os elevados princípios recebidos da civilização egípcia, espalha os mais soberbos clarões espirituais nos horizontes da Terra. Poucas fases da evolução européia se aproximaram desse século maravilhoso. 
O Salvador contempla, das Alturas, essa época de elevadas conquistas morais, cheio de amor e de esperança. O planeta terrestre aproximava-se da sua maioridade espiritual quando, então, poderia Ele 
nutrir o coração humano com a sementeira bendita da sua palavra. Envia, então, às sociedades do globo o esforço de auxiliares valorosos, nas figuras de Ésquilo, Eurípedes, Heródoto e Tucídides, e por fim a extraordinária personalidade de Sócrates, no intuito de realizar o coroamento do esforço decidido de tantos mensageiros.

SÓCRATES

É por isso que, de todas as grandes figuras daqueles tempos longínquos, somos compelidos a destacar a grandiosa figura de Sócrates, na Atenas antiga.
Superior a Anaxágoras, seu mestre, como também imperfeitamente interpretado pelos seus três discípulos mais famosos, o grande filósofo está aureolado pelas mais divinas claridades espirituais, no curso de todos os séculos planetários. Sua existência, em algumas circunstâncias, aproxima-se da exemplificação do próprio Cristo. Sua palavra confunde todos os espíritos mesquinhos da época e faz desabrochar florações novas de sentimento e cultura na alma sedenta da mocidade. Nas praças públicas, ensina à infância e à juventude o formoso ideal da fraternidade e da prática do bem, lançando as sementes generosas da solidariedade dos pósteros.
Mas Atenas, como cérebro do mundo de então, apesar do seu vasto progresso, não consegue suportar a lição avançada do grande mensageiro de Jesus.
Sócrates é acusado de perverter os jovens atenienses, instilando-lhes o veneno da liberdade nos corações.
Preso e humilhado, seu espírito generoso não se acovarda diante das provas rudes que lhe extravasam do cálice de amarguras. Consciente da missão que trazia, recusa fugir do próprio cárcere, cujas portas se lhe abrem às ocultas pela generosidade de alguns juízes.
Os enviados do plano invisível cercam-lhe o coração magnânimo e esclarecido, nas horas mais ásperas e agudas da provação; e quando a esposa, Xantipa, assoma às grades da prisão para comunicar-lhe a nefanda condenação à morte pela cicuta, ei-la exclamando no auge da angústia e desesperação:

- "Sócrates, Sócrates, os juizes te condenaram à morte..."
- "Que tem isso? - responde resignadamente o filósofo - eles também estão condenados pela Natureza."
- "Mas essa condenação é injusta..." - soluça ainda a desolada esposa.
E ele a esclarece com um olhar de paciência e de carinho:
- "E quererias que ela fosse justa?"
Senhor do seu valoroso e resignado heroísmo, Sócrates abandona a Terra, alçando-se de novo aos páramos constelados, onde o aguardava a bênção de Jesus.

OS DISCÍPULOS

O grande filosofo que ensinara à Grécia as mais belas virtudes, como precursor dos princípios cristãos, deixou vários discípulos, dos quais se destacaram Antístenes, Xenofonte e Platão. Falaremos, apenas, deste último, para esclarecer que nenhum deles soube assimilar perfeitamente a estrutura moral do mestre inesquecível. A História louva os discursos de Platão, mas nem sempre compreendeu que ele misturou a filosofia pura do mestre com a ganga das paixões terrestres, enveredando algumas vezes por complicados caminhos políticos. Não soube, como também muitos dos seus companheiros, conservar-se ao nível de alta superioridade espiritual, chegando mesmo a justificar o direito tirânico dos senhores sobre os escravos, sem uma visão ampla da fraternidade humana e da família universal.
Contudo, não deixou de cultivar alguns dos princípios cristãos legados pelo grande mentor, antecipando-se ao apostolado do Evangelho, antes de entregar a sua tarefa doutrinária a Aristóteles, que ia também trabalhar pelo advento do Cristianismo. 

PROVAÇÃO COLETIVA DA GRÉCIA

A condenação de Sócrates foi uma dessas causas transcendentes de dolorosas e amargas provações coletivas, para todos os espíritos que participaram dela, na medida justa das responsabilidades pessoais entre si.
E é em razão disso que, mais tarde, vemos o povo nobre e culto de Atenas fornecendo escravos valorosos e sábios aos espíritos agressivos e enérgicos de Roma. Eles iam nas galeras suntuosas, humilhados e oprimidos, sem embargo das suas elevadas noções da vida, do amor, da liberdade e da justiça.
É verdade que iam instaurar um novo período de progresso espiritual para as coletividades romanas, com os seus luminosos ensinamentos, mas o processo evolutivo poderia ladear outros caminhos, longe do morticínio e da escravidão. Todavia, sobre a fronte de muitos gregos ilustres, pairava o sanguinolento labéu daquela injusta condenação, labéu ignominioso que a Grécia deveria lavar com as lágrimas dolorosas da compunção e do cativeiro. 

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