sábado, 22 de outubro de 2016

Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho - O Fim do Primeiro Reinado

Pelo Espirito de Humberto de Campos
Psicografia Francisco Cândido Xavier

Um dos traços característicos do povo brasileiro é o seu profundo amor à liberdade. A largueza da terra e o infinito dos horizontes dilataram os sentimentos de emancipação em todas as almas chamadas a viver sob a luz do Cruzeiro. Desde que se esboçaram os primeiros movimentos nativistas, a mentalidade geral do Brasil obedeceu a esse nobre imperativo de independência e, ainda hoje, todas as ações revolucionárias que se verificam no país, lamentavelmente embora, trazem no fundo esse anseio de liberdade como o seu móvel essencial.

A atitude de D. Pedro I, ordenando a dissolução da Constituinte, em 1823, tivera funda repercussão no espírito geral. Se bem ignorasse o que vinha a ser uma constituição boa e justa, o povo a reclamava, dentro do seu conhecimento intuitivo, acerca da transformação dos tempos.

O imperador, apesar das suas paixões tumultuárias e das suas fraquezas como homem, possuía notável acuidade, em se tratando de psicologia política. Os estudiosos, que viram na sua personalidade somente o amoroso insaciável, muitas vezes não lhe reconhecem o espírito empreendedor na direção das coisas públicas, inaugurando a era constitucional do Brasil e Portugal, com as suas valorosas iniciativas. São de lamentar os seus transviamentos amorosos e a tragédia da sua vida conjugal, quando ao seu lado tinha uma nobre mulher, cujas renúncias e dedicações se elevavam ao heroísmo supremo; mas, nos instantes em que seu coração se tocava das ideias generosas, criando-lhe no íntimo um estado receptivo propício às inspirações do mundo invisível, as falanges de Ismael aproveitavam o minuto psicológico para auxiliá-lo na tarefa de consolidação da liberdade da Pátria do Evangelho. Foi assim que muitos decretos saíram de suas mãos, objetivando, inegavelmente, a tranquilidade geral.

Como dizíamos, a sua resolução extrema de dissolver a Assembleia e exilar os Andradas cavara um abismo entre ele e a opinião pública, intransigentemente apaixonada pela emancipação do país. As lutas isoladas se multiplicavam assustadoramente. No Rio e nas províncias, tudo era um clamor surdo de protestos contra os atos de D. Pedro, que, aliás, não poderia manteroutra atitude em face do ambiente confuso do país.

A Província de Pernambuco, onde se plantaram, inicialmente, as balizas dos grandes sentimentos da liberdade e da democracia sob a influência de Maurício de Nassau, alimentava, mais que nunca, o sentimento de independência e de autonomia. Todas as grandes ideias encontravam, no Recife, o clima apropriado ao seu desenvolvimento e foi justamente aí que as deliberações de D. Pedro feriram mais fundo. A 24 de julho de 1824 estalam, na terra pernambucana, os primeiros movimentos da Confederação do Equador, que se ramificava por toda a região do Norte a proclamar as generosas ideias republicanas. Paes de Andrade coloca-se à frente da ação revolucionária, com o fim de agir contrariamente ao imperador, a quem se atribuía o propósito de reunir as coroas do Brasil e de Portugal, reintegrando-se o primeiro na vida colonial. Mas, o governo central providencia energicamente. Lorde Cochrane e Lima e Silva são enviados com urgência para extinguir a insurreição. Em Pernambuco, o futuro Marquês do Recife, com todo o seu prestígio entre os lavradores, inicia a defesa do governo imperial e prestigia as tropas enviadas, que sufocam o movimento. Os republicanos são vencidos e presos.

Paes de Andrade refugia-se num navio inglês, conseguindo escapar à ação repressiva do Império; mas João Ratcliff e Frei Caneca pagam com a vida o sonho republicano. Executados militarmente, são eles o doloroso escarmento para os companheiros. Ambos iam, porém, associar-se aos trabalhos do Infinito, sob a direção de Ismael, cuja misericórdia alentava as energias da pátria brasileira.

Não terminaram, com o desaparecimento da Confederação do Equador, as agitações intestinas. Os reinóis, espalhados por todos os recantos do país, esperavam um golpe de unificação das duas pátrias, sonhando com o regresso à vida colonial, em benefício dos seus interesses econômicos. Os brasileiros, todavia, entravam em luta com os portugueses, constituindo esses movimentos uma ameaça constante à paz coletiva, durante vários anos.

O mundo invisível, porém, atua de maneira sensível entre os gabinetes políticos, para que a Província Cisplatina fosse reintegrada em sua liberdade, após a anexação indébita, levada a efeito pelas forças armadas de D. João VI, em 1821, por inspiração de D. Carlota Joaquina. A imposição para submetê-la era francamente impopular, porquanto, desde o início da civilização brasileira, os mensageiros de Jesus difundiram o mais largo conceito de fraternidade dentro da Pátria do Cruzeiro, onde todo o povo guarda a tradição da solidariedade e da autonomia. A realidade é que Ismael triunfa sempre. Apesar das primeiras vitórias das armas brasileiras, a Província Cisplatina, que não era produto elaborado pela Pátria do Evangelho nem fruto de trabalho dos portugueses, se separava definitivamente do coração geográfico do mundo, graças à mediação pacífica da Inglaterra, para formar o território que veio a constituir a República Oriental do Uruguai.

Enquanto se desenrolavam esses acontecimentos, a opinião pública do Brasil não abandonava a crítica a todos os atos e deliberações do imperador. D. Pedro, senhor da psicologia dos tempos novos, não ignorava quanta decisão reclamavam os afazeres penosos do governo. Seus ministérios, no Rio de Janeiro, se organizavam para se desfazerem em curtos períodos de tempo. O país andava agitado e apreensivo, temendo-lhe as resoluções e espreitando-lhe os menores gestos. As suas aventuras amorosas eram perfidamente comentadas pelas anedotas da malícia carioca. O povo, conhecendo alguma coisa da sua conduta particular, se encarregou de elaborar a maior parte de todas as histórias ridículas em torno da sua personalidade, que, se rude e sensual, não era diferente da generalidade dos homens da época e tinha, não raras vezes, rasgos generosos, que alcançavam os mais altos cumes do sentimento.

A imprensa instituída pelo Conde de Linhares, em 1808, sob a proteção de D. João VI, no casarão da Rua do Passeio, não o abandonou, transformando-se em sentinela dos seus menores pensamentos. O imperador era acusado de proteger, criminosamente, os interesses portugueses, a despeito das suas ações em contrário. Muitas vezes, em momentos de meditação, no Paço de São Cristóvão, já ao tempo de suas segundas núpcias, deixava ele vagar o espírito pelo mundo rico das suas experiências, acerca dos homens e da vida, para reconhecer que todo aquele ódio gratuito lhe advinha da condição de português nato. O Brasil era reconhecido ao seu feito, no que se referia à independência política, mas não tolerava a origem do seu imperador, em se tratando dos problemas da sua autonomia.

Dias após as “noites das garrafadas”, em que os partidos políticos se engalfinharam na praça pública, de 12 a 14 de março de 1831, D. Pedro compareceu a um Te-Déum na igreja de São Francisco, sendo recebido, depois da cerimônia religiosa, pelo povo que o rodeou, com algumas demonstrações de desagrado. Para aplacar os ânimos exaltados do partidarismo, D. Pedro organiza novo ministério, todo composto de homens de sua absoluta confiança. O povo, entretanto, divisando dentro do novo gabinete ministerial somente os que ele considerava os palacianos de São Cristóvão, reuniu-se no Campo de Santana, capitaneado por demagogos e, em poucos minutos, a revolução se alastrava pela cidade inteira.

Deputações populares são enviadas ao imperador, que as recebe com serenidade e indiferença. Entre os revoltosos estão os seus melhores amigos. Os senhores da situação eram os mesmos a quem o imperador havia amparado na véspera. O próprio exército, que organizara com imenso desvelo, se voltava contra ele naquela noite memorável. D. Pedro, depois de ouvir à meia-noite as explicações do Major Miguel de Frias, que viera a palácio em busca da sua decisão quanto às exigências do povo, que lhe impunha o antigo ministério, mandou chamar o chefe da guarda do regimento de artilharia, aquartelado em São Cristóvão, e lhe ordenou, com serena nobreza, que se reunisse com os seus homens às tropas revoltadas, acrescentando generosamente:

— Não quero que ninguém se sacrifique por minha causa.

Depois da meia-noite, preferiu ficar só, na quietude do seu gabinete. Ali, atentou no patrimônio das suas experiências. Através do silêncio e da sombra, a voz de seu pai, já na vida livre dos espaços, lhe falava brandamente ao coração. Os mensageiros de Ismael auxiliam-lhe o cérebro esgotado na solução do grande problema e, às duas horas da madrugada de 7 de abril de 1831, sem ouvir sequer os seus ministros e conselheiros, abdicava na pessoa do filho, D. Pedro de Alcântara, que contava então cinco anos, e ficaria sob a esclarecida tutela de José Bonifácio.

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