quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Dramas da Obsessão - A Severidade da Lei - Capítulo XIII

Yvonne do Amaral Pereira
Ditado pelo Espirito de Adolfo Bezerra de Menezes



Justamente no desfecho da presente narrativa, que, absolutamente, não é uma ficção, encerra-se toda a aspereza da terrível lei de Causa e Efeito, que nas páginas precedentes já foi cuidadosamente contornada sob o realismo de fatos por mim vistos e examinados. 
Esse desfecho abrange duas personalidades que o leitor ainda não esqueceu — Alípio e Caetano, o Senhor de outrora e seu antigo escravo de confiança, ligados, moral e espiritualmente, pelos liames do passado e de modo irremediável, portanto, através do futuro. A lei de Causa e Efeito deveria ser estudada, espiritualmente, pelos homens, com o máximo esmero, meditando todos sobre ela o bastante para se forrarem ao seu gládio severo e inevitável, que desfere represálias impressionantes, porém, justas, criteriosas e sábias, as quais representam a reação da Natureza, ou da Criação, contra a desarmonia estabelecida em suas diretrizes pela própria criatura. 
Os homens, no entanto, jamais se aplicam a essa nobre investigação que lhes evitaria desgraças, apoucamentos e ignomínias que, absolutamente, não estariam no seu roteiro, se eles, mais comedidos nas ações diárias, não os criassem para si mesmos, com atitudes verificadas a cada passo na sociedade como dentro do lar. 
Ora, como vimos para trás, a revolta de Caetano crescia contra Alípio, a quem atribuía as desventuras que vinha experimentando. 
Perdera de vista a terna amiga Angelita e, choroso, incapaz de perceber o meio eficaz de caminhar ao seu encontro, voltava-se contra Alípio, responsabilizando-o pelo desaparecimento da única amável criatura por quem se sentira amado, aquela Rosa compassiva de outrora, que jamais o humilhara; a Angelita de agora, que o embalara em vibrações dulcíssimas de amor materno, durante a espera do nascimento daquele corpo que deveria ocupar e que fora destroçado, como se tal destroçamento traduzisse o eco do trágico feito de Vila Rica no indefeso recém-nascido. Fizera-se, assim, como que a própria sombra do infeliz Alípio. 
Roubava-lhe a paz do sono, apresentando-se-lhe em sonhos para exprobrar-lhe os antigos crimes que o obrigara a praticar, como os maus tratos morais infligidos a Angelita, o que resultava em pesadelos impressionantes para o perseguido, em choques psíquicos que lhe perturbavam o funcionamento do sistema nervoso e até o sistema de digestão alimentar. 
Porque entendesse que Alípio se deveria conservar fiel à memória da esposa, intrometia-se na sua vida sentimental... o que resultava, para o sedutor, multiplicar as próprias conquistas amorosas, tão facilmente como das mesmas desfazer-se, redundando sempre, em torno deste, vibrações odiosas e deletérias dos corações ludibriados. 
Ao prazer sentimental seguia-se, porém, o prazer do jogo, paixão conturbadora, excitante, que infelicita, na Terra e no Além, aquele que se permite desfrutá-la, pois o infeliz obsidiado, embora não se apresentando declaradamente perturbado das faculdades de raciocinar, mostrava-se inquieto e desgostoso, em busca de algo ignorado, o íntimo remorso de tantos desatinos picando-lhe açodadamente a consciência e o coração. 
E seguiam-se viagens sempre mais extensas, recordando as efetivadas outrora, em Vila Rica, dado que seu acompanhante invisível ainda se prendia às recordações do Passado... e durante as quais quantias vultosas eram despendidas à procura de algo indefinível, cuja ausência o desorientava, descuidado de procurar compreender que o que lhe faltava era exatamente o recurso único que o salvaria do abismo em que se deixava precipitar, isto é, o amor e o respeito a Deus, o recurso da prece humilde que carrearia socorro certo, predispondo-o ao intercâmbio mental com as forças defensoras do Bem. Assim, afeito ao endurecimento secular dos próprios sentimentos, Alípio nada tentou que o auxiliasse a se desvencilhar do perseguidor invisível e ignorado. 
Até que, em uma das constantes viagens que empreendia, inquieto e insubmisso como soem ser as pessoas fortemente atingidas por um assédio obsessor, a trocar, de quando em vez, de pouso, de um para outro carro, com o comboio em movimento, o desgraçado Alípio, falseando a passada entre os galeios dos dois carros, sem ponto de apoio para se reequilibrar, deixa-se cair entre os mesmos, sendo dolorosamente esquartejado pelas rodas do terrível trem de ferro em movimento rápido. Caetano, odioso, num violento impulso psíquico, impelira-o à queda... 
(33) Oh! Que assombrosos, impressionantes laços mentais-magnéticos inferiores atariam tão poderosamente essas duas almas submersas nas sombras de si mesmas, numa conjugação macabra de afinidades perniciosas? Os pavorosos laços do crime! 
As terríveis afinidades originárias da prática do mal em comum, laços e afinidades que somente uma renovação pessoal à luz redentora do Evangelho cristão, bem sentido e praticado, poderá corrigir e modificar, para os eventos do progresso e do bem legítimo. Informado pela própria Angelita do trágico e inesperado fim corporal terreno daquele que tão caro fora ao seu coração; que tão desumanamente se conduzira pelos dias dramáticos da sua enfermidade, mas a quem ela mesma soubera perdoar com tanto desprendimento e grandeza d'alma, parti em busca do infeliz Espírito, arregimentando companheiros e assistentes para a melindrosa intervenção, antes que Caetano e demais bandoleiros do Invisível o aprisionassem em suas hostes. 
Não caberá nestas páginas uma narrativa em torno do lamentável acontecimento. 
Direi apenas, finalizando a tese, que muito penosamente o Espírito de Alípio, atordoado e dolorosamente traumatizado pelo gênero de desprendimento físico-carnal, readquiriu a lucidez espiritual para se movimentar em tentativas de recuperações conscienciais. 
Adotei-o, penalizado, sob meus cuidados espirituais, aconchegando-o ao carinho dos meus benévolos companheiros de trabalho, e assim libertando-o das garras de Caetano. 
Por ele velei sob a proteção das leis de Fraternidade, que me permitiam o serviço, notando-o apavorado ante os acontecimentos, disposto a se submeter, futuramente, aos deveres desprezados durante o estado de encarnação. 
Angelita secundou-me os esforços, coração amorável que se desdobrou em dedicações incansáveis a favor daquele que durante onze anos a humilhara e moralmente a martirizara num leito de dores! E certa vez, enquanto cuidávamos de aliviar as impressões do dolorido Alípio, que se convulsionava em pesadelos conscienciais, murmurei em surdina para a minha amável assistente do momento — a mesma Angelita —, pupila da lirial falange de Antônio de Pádua: — Oh! Quão severa e temível é a lei que rege os destinos da Criação! 
Ele, Alípio, desencarnou esquartejado sob as rodas de um trem de ferro, vítima do impulso obsessor da mesma entidade a quem, em Vila Rica, durante existência mais antiga, ordenara que assassinasse um pobre recém-nascido, seu próprio filho! Misericordioso Deus! 

Os homens terrenos precisam ser avisados destas impressionantes verdades, a fim de que melhor se conduzam durante as obrigatórias travessias das existências. A formosa Angelita revelou uma expressão de amargura, e, voltando seu pensamento para os dias vividos no pretérito, comentou em segredo, só para mim, atemorizada e aflita: — Meu venerando amigo! Estou certa de que a expiação sofrida pelo meu Alípio, com a ignominiosa desencarnação que houve de enfrentar, não se prendeu tão somente ao caso do pobre recém-nascido de Vila Rica. E porque eu a fitasse, preocupado: Sabei, querido amigo, que ele, sob a forma carnal do cidadão português Fernando Guimarães, residente em Vila Rica, mais não foi que um espião da Metrópole portuguesa em Minas Gerais, disfarçado em caçador de riquezas, exatamente como o meu esposo de então... local aquele, Minas Gerais, em que também existiam os maiores valores intelectuais brasileiros, temidos pelos governantes de Portugal. Foi um politiqueiro astuto e dissimulado... que muito e muito se comprometeu nas odiosas tramas que resultaram na desgraça de muitas personalidades nativas e no enforcamento e consequente esquartejamento do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes! 

Quedei-me absorto e quase aterrorizado, pensando na profundidade, na complexidade das leis da Criação, isto é, da lei de Causa e Efeito, enquanto a pupila de Antônio chorava de mansinho. Penoso mal-estar invadiu meu coração, afligindo-o. 
Socorri-me, no entanto, do amparo de veemente prece ao Senhor de todas as coisas, que, em sua soberana bondade, concedeu após, ao meu coração, serenidade bastante para o prosseguimento da tarefa que me impusera. Quanto a Caetano, certo de que mais um grande crime acabara de praticar, manteve-se desaparecido entre as trevas do mal durante algum tempo ainda. Mas, as preces de Angelita — o coração que dele se apiedara em Vila Rica e que, depois, o amara ternamente, durante o período de espera para o seu nascimento, como filho do seu consórcio com Alípio — acabaram por tocar-lhe o coração mais uma vez... e, presentemente, reencarnado na Terra, entra em fase de reparações e reeducação para o expurgo da consciência enlutada, ao lado de Alípio, também já reencarnado, e do qual é irmão mais novo. * * * Leitor! Ama e respeita a Doutrina do Consolador prometido por Jesus! Zela, prudentemente, pela Revelação, que ela te concede, das Verdades eternas! Difunde-a com clareza e dedicação, porque somente ela, com os ensinamentos das leis que dirigem os destinos humanos, corrigirá tais desarmonias existentes no seio das sociedades terrenas. 

Fim

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