sábado, 15 de agosto de 2015

Dramas da Obsessão - A Severidade da Lei - Capítulo XI

Yvonne do Amaral Pereira
Ditado pelo Espirito de Adolfo Bezerra de Menezes




Por uma dessas atrações vibratórias que para a maioria dos pensadores se conservam envoltas em impenetráveis mistérios, a entidade Caetano prendera-se de profundo amor àquela que se tornaria sua mãe terrena, que realmente o fora, porque, durante o longo período da gestação e desenvolvimento do seu corpo, tivera o períspirito poderosamente atraído para o dela pelos liames magnéticos necessários ao feito reencarnatório, num aconchego terno e emocional de irradiações amoráveis e encantadoras, que geralmente é o que produz o sentimento imperecível de uma mãe pelo seu filho, e vice-versa, ainda que seus Espíritos sejam desconhecidos (32). 

As intensas vibrações mentais irradiadas pela mulher que será mãe, em favor do entezinho que já palpita em seu seio fecundado; o amoroso, inexcedível carinho do seu coração, que cumula de doces enlevos aquele retalho de si mesma, que será o seu filhinho amado, mesmo antes do nascimento; o desvelo sublime com que lhe prepara o enxovalzinho mimoso, tesouro que suas mãos fabricam entre suaves emoções do coração e pensamentos santificados pela alegria da maternidade, criam em torno da gestante uma atmosfera mental radiosa que atrai, cativa e apaixona o Espírito do nascituro, enquanto comove o observador invisível, que contempla as repercussões que o fato produz nas vibrações de ambos, vibrações que se entrecruzam, se entrelaçam num ósculo santo, a que ambos perfeitamente se adaptam. 

Daí, pois, igualmente, essa ligação indefectível dos filhos com suas mães, além de outras que, em muitos casos, costumam existir a par das que citamos. De um modo idêntico, se a mulher irradia aversão à maternidade, dedicando a esse ser que trás consigo pensamentos malévolos e odiosos, até ao extremo de destruí-lo, negando-lhe a existência por seu intermédio, o inverso se realiza e o Espírito que reencarnaria através dela torna-se, frequentemente, perigoso inimigo, que a perseguirá em Além-Túmulo mais tarde e, possivelmente, em posterior existência, podendo mesmo obsidia-la sob várias formas.

Espiritualmente, Caetano continuava afeito a Angelita, não olvidando ainda que outrora, em Vila Rica, dela recebera o melhor trato a que um escravo poderia aspirar, porque desinteressado, visto que nem mesmo fora sua propriedade. 

Sabia ser Angelita a revivescência espiritual de Rosa, e, conquanto ignorasse os pormenores do feito reencarnatório, distinguia o bastante para acompanhá-la com sentimentos muito confiantes.

De outro modo, reconhecia em Alípio aquele Fernando de quem fora escravo, a quem devera a salvação da morte na forca, mas sob as injunções de quem se aviltara ainda mais, no crime. Não ignorava que, graças a tais delitos, teria de arrastar sobre a Terra, mais dia menos dia, como reencarnado, vidas de expiações e trabalhos. E que, por isso mesmo, era que sua existência incorpórea do momento era povoada de remorsos e alucinações lancinantes. 

Mas, Espírito inferior e retardado no progresso, que se prazia de ser, não se animava a decisões salvadoras sob as advertências dos obreiros do Amor, que o desejariam ajudar. A princípio, não raciocinou francamente sob tal aspecto da própria miséria, ou seja, sobre o fato de Alípio o haver instigado ao crime. Este continuava, para ele, como sendo o bom Senhor que o libertara outrora da forca. Mas, assistindo agora, diariamente, à impiedade deste contra a pobre Angelita, entrou a raciocinar que o mesmo Alípio — o Fernando de Vila Rica — fora o causador das desgraças que afligiam aquela amiga querida e também da sua própria situação miserável, pois, outrora, impelira-o a crimes imperdoáveis, dentre outros o do assassínio bárbaro do recém-nascido, no fundo da velha chácara daquela antiga sede de Província.

Com o desaparecimento da enferma dos liames carnais, recrudesceu a sua irritação contra o despreocupado viúvo, a quem passou a responsabilizar também pela morte desta. E então, contundiam-lhe o coração as dolorosas impressões do abandono a que se via relegado, da saudade, da tristeza inconsolável, pois, enquanto Angelita ascendia a páramos reconfortadores do mundo astral, ele próprio, sem capacidades morais para acompanhá-la, permanecia na própria Terra, entregue a prantos amargos, vagando pela casa vazia e entristecida, perambulando pelas ruas qual mendigo desolado, visitando o Campo Santo onde sabia seu corpo sepultado.

Aversão insopitável contra Alípio avassalou então o coração apaixonado da inferior entidade. Passou a acompanhá-lo, irradiando hostilidades, admoestando-o sempre pelas infelicidades a ele próprio e a Angelita causadas. Seguia-o, como outrora, pelas caçadas e aventuras, mas, agora, choroso e desanimado, desejando-lhe toda a espécie de males e desgraças, em desagravo às ofensas recebidas.






Por sua vez, Alípio continuava servindo ao egoísmo que nutrira sempre, vivendo inteiramente arredado dos deveres da moral. Uma vez enviuvando, negara-se a desposar a jovem a quem seduzira, a qual, agora mãe de duas lindas criancinhas, sofria a humilhação de ser por ele considerada criatura de condição social inferior, a quem não serão devidas verdadeiras atenções; e, pouco depois, dela igualmente se fartando, promovera o matrimônio dela com um pobre homem valetudinário, ao qual concedeu um ordenado mensal para que lhe fosse criando os dois filhos, junto à mãe, sem grandes dificuldades. Sua vida tornara-se, então, anormal, sob o assédio de Caetano. Trabalhador e dinâmico que fora, passou a se sentir inabilitado para quaisquer empreendimentos. Não lograva satisfação e bem-estar em parte alguma, porquanto não laborava a fim de adquiri-los no interior da própria consciência.

Supondo-se enfermo, consultara o médico. Não encontrando em sua organização física senão ligeira alteração nervosa, o facultativo prescreveu distrações, passeios, viagens. Alípio então se pôs a viajar daqui para ali e acolá, entregando-se a prazeres desordenados: teatros licenciosos, amores condenáveis, frequências a clubes noturnos onde se embrutecem as boas tendências da alma, jogos e libações de vinhos, etc., enquanto a entidade sofredora e endurecida, do escravo de outrora, continuava seguindo-o qual repercussão lógica e irremediável do pecaminoso passado que ainda não fora expungido do seu destino...

(32). Nem sempre esses elos são originários do Amor. Poderão formar-se também no ódio, tendo em vista penosas expiações e reparações para o advento da reconciliação dos Espíritos.

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