sexta-feira, 31 de julho de 2015

Dramas da Obsessão - A Severidade da Lei - Capítulo VIII

Yvonne do Amaral Pereira
Ditado pelo Espirito de Adolfo Bezerra de Menezes

Angelita convalescia lenta, penosamente. Profundo desapontamento anuviava o coração do jovem casal. Um mês após a operação, declarara o médico assistente, consternado, que a cliente se tornara inválida, não lhe sendo facultada a possibilidade, nunca mais, de se levantar do leito para caminhar ou sequer sentar-se! 
Certo acidente muito grave, ocorrido durante a indecisão em chamar-se o médico para se decidir a operação, causara o desastre, tornando Angelita criatura semimorta em plena florescência das suas dezenove primaveras! Desolado, Alípio encobrira da esposa a consternadora verdade, alimentando, piedosamente, naquele coração amante e ainda repleto de doces ilusões, a fictícia esperança de um restabelecimento, no intuito de reanimá-lo, enquanto o seu próprio coração sangrava na desventura dos sonhos malogrados para uma feliz vida conjugal. 
Nos primeiros meses que se seguiram, cercou-a ele de todos os desvelos que um sentimento terno, acometido de compaixão, poderia inspirar, passando tardes inteiras à sua cabeceira e reservando-lhe os domingos inteiramente, numa assistência integral, edificante. 
Pouco a pouco, porém, o irremediável estado de coisas impôs-se, cansando o ardoroso Alípio, cansando a senhora Matilde, mãe de Angelita, a qual, retornando ao próprio domicílio, abandonara a filha ao cuidado de serviçais, pretextando urgência de se reintegrar nos afazeres próprios, ao passo que o genro já se desinteressava dos serões da tarde, afastando-se do lar igualmente aos domingos, para o almoço com amigos, regressando, destarte, ao antigo estado de solteiro. 
E Angelita, então, passou a se reconhecer esquecida pelo marido, o qual, ao sair, apressado sempre, beijava-a distraidamente ou mesmo deixava de o fazer; reconheceu-se esquecida pela mãe, que, irritada, ao visitá-la, de quando em vez, blasfemava em sua presença, sugerindo que o Criador teria agido melhor, levando-a por ocasião do parto... 
E a infeliz, então, tudo observando sob o cáustico de um lento e silencioso martírio, inteirou-se finalmente da verdadeira situação a que ficara reduzida. Mas, calava-se diante das impiedosas argumentações maternas e jamais irritava o esposo com quaisquer queixumes ou reclamações, preferindo chorar às ocultas, discreta e altiva ao sentir-se traste incômodo a quem toda a família desejaria ver baixar à sepultura. 
Então, quando todas as desilusões se sobrepuseram às suas esperanças, ameaçando desesperá-la, avolumou-se em seu destino a dedicação ilimitada de um anjo bom travestido na pessoa de uma amiga leal, cuja alma de crente se prestou, fácil e dignamente, à intervenção oculta da Espiritualidade para socorrê-la no seu estranho calvário. 
Essa alma, favorecida pelas dúlcidas inspirações do Alto, graças aos dons de bondade que sabia cultivar, foi Sarita, a jovem viúva a quem entrevimos no início desta história. 
E, assim, grandioso panorama de caridade moral, a mais completa, a mais espinhosa a ser realizada, em vista dos complexos que se lhe antepõem às inspirações, começou a se desenrolar sob o teto daquele lar, tornado em túmulo prematuro de um espírito que delinqüira em diferentes etapas reencarnatórias. 
Compreendendo a amiga inválida, sem esperanças de jamais se restabelecer, Sarita tratou de suavizar a decoração do presídio em que se transformara a câmara conjugal do jovem casal. Transformou-a em formosa e pitoresca sala, onde o leito seria o trono e Angelita a soberana. Ornou-a de belos tapetes, de quadros e de flores, para lá transportando igualmente o piano da jovem. 
Ali mesmo promovia, aos domingos, com suas alunas e amigas, delicados recitais de declamação, no intuito de distrair a enferma, e atraiu visitas frequentes, que alegravam a pobre moça com palestras edificantes, porque escolhidas e sérias. Ela própria, apesar da escola e dos cinco filhos que dirigia, visitava a doente pela manhã e à noite, até à hora do chá, quando então a acomodava para adormecer. E tais visitas, cuja dedicação repercutiu em Além-Túmulo com as maviosas ressonâncias da sublimação do amor fraterno, retratando a beneficência num dos seus matizes mais brilhantes, tiveram um curso regular, diário, ininterrupto, de onze longos anos, período em que se manteve a enferma no leito, sem que jamais Sarita negligenciasse nas suas atenções à amiga. Felizmente para ambas, a bondosa viúva, portadora de excelente saúde, jamais adoecia seriamente. 
Os pequenos resfriados e indisposições, que porventura a assaltassem ocasionalmente, nunca foram pretextos para que deixasse de cumprir o seu devotamento junto da inválida, cuja residência, por felicidade, distava poucos passos da sua. Fez mais a amável criatura: — colocou nas mãos da enferma, que apenas se poderia recostar entre almofadas, a confecção de bordados e crochês, de rendas e flores, e pequenas costuras. 
Animou-a a ensinar as primeiras lições do silabário e os primeiros trabalhos manuais a pobres crianças que não teriam ensejo de algo aprender se não fora a boa vontade dos corações bem formados, e a câmara, assim sendo, foi transformada em escola, fato que constituiu sublime encantamento para Angelita, que admirava as crianças. 
E coroando todo esse programa de beneficência, ela própria, Sarita, lecionava à amiga a idéia de Deus, a existência e a imortalidade da alma humana, a consoladora esperança de uma vida após a morte, plena de justiça e recompensas para aquele que, à frente de irremediáveis dilacerações morais durante a vida hodierna, a elas souber resignar-se ao mesmo tempo que delas faça a escalada evolutiva para Deus. 
Ensinou-a a orar, orando ela mesma, diariamente, em sua companhia. E, atraindo para o recinto, como de justiça, com tais atitudes, os adamantinos eflúvios da Espiritualidade, reconhecia que Angelita se beneficiava, porquanto suas revoltas e blasfêmias diminuíam sensivelmente. 
O Trabalho, bendito elemento de redenção, desenvolvido tão singela quanto eficientemente, em torno de crianças de condições humildes, despertou na doente o sentimento de fraterno interesse pelos semelhantes. A meditação em torno da alma humana levou-a a identificar-se com os ideais religiosos. E a resignação, sublime amparo do desgraçado, envolveu sua personalidade, encorajando-a e dignificando-a em pleno testemunho de dores acerbas. 
Ao demais, Sarita promovia chás e convidava amigas, reservando-se ainda para acompanhá-la ao almoço dos domingos, na ausência de Alípio, que se desinteressara completamente do lar. Confeccionava-lhe caprichosos vestidos e blusas modernas, adornando-a e perfumando-a sempre com subido carinho. Lia-lhe interessantes romances e contos atraentes, os quais eram motivos de agradáveis debates entre ambas. 
Deu-lhe a conhecer, sutilmente, a literatura evangélica... e um curso de cristianização seguiu-se na doçura daquela câmara para onde se dirigiam as visitas misericordiosas dos Céus. Lia para a amiga as mais belas e comoventes passagens do Novo Testamento, como a vida dos primeiros cristãos. Comentava parábolas, curas, feitos, conversões, ensinamentos de Jesus ao povo, analisando as consequências sociais daí derivadas, apresentando-lhe Jesus tal como realmente o vemos apresentado nos Evangelhos — ativo, sociável, prático, amigo do povo sofredor, pronto sempre a remover dificuldades, a aliviar sofrimentos alheios, a ensinar e esclarecer, construindo no coração humano a moral imarcescível de que resultará a própria evolução social do planeta. Livros educativos, então muito em uso à cabeceira dos pensadores e estudiosos inclinados ao ideal de perfeição humana, como o eram os de Samuel Smiles, de José Ingenieros; a “Imitação de Cristo”, que outrora tantas lágrimas enxugou nos corações oprimidos, na solidão de câmaras tristes, eram apresentados à inválida pela capacidade moral de Sarita. 
E era belo, então, vê-las entretendo-se em análises e debates em torno de tão nobres assuntos, meditando sobre os formosos conceitos e as exposições edificantes encontradas em suas páginas. E porque fosse Sarita alma cândida, revestida de boa vontade, um médium de intuições, embora o ignorasse, os instrutores espirituais acorriam coadjuvando-lhe os esforços a favor da ovelha necessitada de socorro. E, assim sendo, a inspiração brotava de sua alma momentaneamente revigorada pelas forças benfazejas do Invisível, e lições fecundas e revivificadoras eram para ali veiculadas através do canal piedoso do seu coração angelical.
Esse paciente, admirável trabalho de consolação e reedificação moral de uma criatura enferma psíquica e fisicamente, conforme asseveramos, levou não menos de onze anos, incansáveis e eficientes, ao qual nem mesmo festejos de natalícios faltaram, sendo as datas gradas do aniversário de Angelita, de Alípio e da própria Sarita comemoradas com satisfação. E pelo Natal de Jesus havia distribuição de dádivas à criançada. Brinquedos, roupinhas, sapatinhos e guloseimas gostosas eram oferecidos a determinado número de pequerruchos e a suas mamães, os quais recebiam das próprias mãos da doente as recordações gentis do dia do Senhor, pois Sarita, que isso tudo preparara cautelosamente durante o ano todo, por essa época transmudava, ainda uma vez, o aposento da amiga em gracioso arsenal de preciosidades infantis, para que- o sorriso aflorasse nos tristes lábios da enferma ao constatar a alegria e a sofreguidão da criançada ao tomar de suas mãos — bonecas e palhaços, carrocinhas e cavalos, fogõezinhos e cartuchos de doces, camisinhas e lindas fitas. 

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