segunda-feira, 29 de junho de 2015

Dramas da Obsessão - Segunda Parte - Capítulo XI

Yvonne do Amaral Pereira
Ditado pelo Espirito de Adolfo Bezerra de Menezes


Era domingo, à tarde. A família Aboab encontrava-se reunida no amplo jardim do solar, sob o frescor das oliveiras evocativas, cujas galhadas se estendiam em proteção aos canteiros de plantas mimosas, contra os rigores do Sol. Decorria o verão e, desde que se tornaram suspeitos às leis da Inquisição, os Aboabs já não conseguiam visitas nem contavam com os comensais, visto que assim se pautava a sociedade de Lisboa em torno dos infelizes hebreus, pela época. Os jardins do solar judaico eram interiores, como sabemos. 

A frente da habitação, murada e como fortificada, havia pátios atijolados, como nas casas nobres, varandas e abrigos para carruagens, viaturas, “cadeirinhas”, etc. No interior, porém, ficavam pomares e jardins, sendo estes localizados no centro da habitação, a qual, toda avarandada, ao gosto oriental, lembraria também claustros conventuais. Comumente a família se reunia ali, à tarde, para confabulações íntimas ou, à sesta, para ouvir as melodias entoadas pela doce Ester. Era igualmente o local preferido para conversarem no seu dialeto tradicional, acerca da história da raça. E Timóteo, então, tomando a palavra, recordava os antigos patriarcas de Israel, narrando aos filhos atentos as grandezas e vicissitudes do seu povo. 

Lia-lhes, depois, contrabalançando o ensino fornecido pelos mestres dominicanos, o Talmude — o livro da sabedoria — ou as próprias Escrituras, e, comentando-os, como doutor da lei que era, instruía quanto podia a família na religião dos seus antepassados, o bastante para infundir-lhe no caráter e destilar no coração aquele orgulho de raça, o exclusivismo sombrio e rígido que produziu a maior vicissitude, dentre tantas, que sofreu o povo israelita, mas que também forneceu o padrão inconfundível do seu valor característico.

As maiores cautelas eram tomadas em tais ocasiões, conforme dissemos para trás. E conquanto estivessem certos de que os serviçais não lograriam atingir aquele recinto, era bem verdade que se fechavam prudentemente, isolando o jardim e assim evitando a possibilidade de serem surpreendidos por quem quer que fosse. Com a prisão de Joel, já desorientados e convencidos de que não tardaria o momento em que eles próprios seriam igualmente detidos pelos sequazes inquisitoriais, seu único lenitivo era reler os Profetas e reestudar as consolações contidas nos livros tradicionais da crença, e o faziam isolados no jardim. 

Bem ao centro deste, e protegido pelos tamarindeiros e as oliveiras, existia um grande tanque com formosa coluna e taça de mármore encimada por três canais em feitio de tulipas artisticamente dispostas, dos quais esguichavam as águas, fazendo transbordar a taça para manter sempre límpido o pitoresco lago. 
Precisamente no pedestal da coluna, cujas bases roçariam a flor das águas, havia um bloco de mármore em forma de grande caixa, mais alta que larga, e cujas paredes artísticas encobriam certa portinhola, como se o bloco ou caixa nada mais fosse do que um esconderijo, cofre de segredo para algo muito valioso que necessitasse ser negado a vistas estranhas. 
O detalhe passaria despercebido a todos os olhares e investigações, pois tais modelos de chafarizes eram comuns e ninguém suspeitaria tratar-se aquele de um estratagema para algo encobrir. Três passagens estreitas, como graciosas pontezinhas, ligavam o bloco de mármore ao terreno do jardim, enfeitando a peça que, realmente, se mostrava interessante.

Nessa tarde de domingo, tristes e apreensivos, reuniram-se os Fontes Oliveira em volta do tanque, no intuito de mutuamente se reconfortarem na intimidade doméstica. Ester entoava aos ares, como em surdina de prece, acompanhando-se à cítara, o Salmo 70 de David, e sua voz doce, magoada, era como a tradução das lágrimas dos próprios filhos de Israel flagelados desde milênios por opressões constantes. Choravam o velho Timóteo e os dois filhos, Saulo e Rubem, a fronte curvada, o coração cruciado e inconsolável, o ânimo já desfalecente ante a persistência e fereza das provações impostas pela violência da Inquisição, enquanto Ester soluçava aos sons enternecidos do suave instrumento:

— “Em ti, Senhor,
Tenho esperado longamente... 
Não seja eu, jamais, 
Por ti esquecido...
Livra-me, Senhor,
Na tua bondade e justiça,
De todos os males
E de todos os perigos...
Põe-me a salvo, meu Deus!
Inclina sobre mim
Teu coração de Pai,
E salva-me
Destes atrozes males,
Porquanto,
A minha firmeza
A minha Esperança 
E o meu refúgio 
És tu!
Deus meu!
Livra-me da ira 
Do inimigo pecador!
Daquele que procede 
Contra a tua lei!
E também 
Do que pratica
Tanta e tanta Iniquidade!
Porque tu, Senhor,
És a minha fé
E a minha Paciência!
Tu, Senhor,
És a minha Esperança 
E o meu Amor!
A minha Alegria 
E a minha Fé!
E espero em Ti, Senhor, 
Desde os dias tão distantes, 
E tão ditosos, 
Da minha infância 
E da minha 
Mocidade...

Quando os acordes maviosos cessaram, o pequeno Rubem, a um sinal do pai, encaminhou-se para uma das três pontezinhas do tanque, não sem investigar, com olhos temerosos, os recantos do círculo onde se achavam, as galhadas dos arvoredos, o alto dos telhados e dos muros e os tufos de arbustos do jardim. Saulo advertiu:

— Não há cá ninguém, eu investiguei...

Enquanto Ester ajuntava:

— Examinei todas as portas: estão trancadas pelo lado de cá...

E Timóteo intervinha, desesperançado:

— Pouco importa que nos descubram agora ou mais tarde... Joel já lá está... e poderemos ir ter com ele... Estamos todos irremediavelmente condenados... A prisão, a tortura e a morte rondam nossos passos... Não tardarão a nos aniquilar de vez... tenhamos ou não infringido a lei...

Reanimado pelo fatalismo pressago do pai, o moço judeu encaminhou-se para o bloco de mármore do pedestal do repuxo, acionou o segredo existente, fazendo mover a parede da caixa, e, introduzindo o braço na cavidade, retirou um grande e precioso livro escrito em hebraico — o Talmude —, o livro precioso da sabedoria de Israel, acompanhado de velhos pergaminhos dos livros dos Profetas, O bloco de mármore seria, portanto, um simulacro da arca sagrada do povo hebreu, onde se guardavam das profanações exteriores os ensinos dos filhos de Abraão, de Isaac e de Jacob.

Timóteo pôs-se a ler e comentar, para os filhos, o tema do dia. Ao terminar, concedeu a palavra a Saulo e a Rubem, respectivamente, como de praxe nas igrejas judaicas, onde a palavra é concedida a qualquer que dela queira usar, excetuando-se as mulheres, que não tinham o mesmo direito. No entanto, enquanto assim cumpriam seus deveres religiosos, um fato marcante para suas vidas começou a desenrolar-se no próprio recinto de sua residência, sem que, todavia, nenhum dos presentes sentisse a mais leve suspeita, pois continuaram a “judaizar”.

João-José, que se conservava alerta a todos os detalhes da vida dos amos, desejou verificar o que poderia tanto entretê-los sob o frescor dos arvoredos. Tentou espioná-los sutilmente, penetrando dependências vedadas aos criados, para atingir o jardim que, como explicamos, era interior, como num claustro conventual. 
Seria, porém, temerário o intento, visto que poderia ser descoberto. Suspendeu-se, então, ao telhado do abrigo das carruagens e viaturas, posto no pátio de entrada. Passou-se daí para o telhado da casa propriamente dita. Arrastou-se como pôde, ocultando-se por entre as chaminés e os rendilhados arquitetônicos, alcançando, finalmente, um terraço de onde poderia contemplar as cenas e até ouvir os debates e conversações, sem ser notado. Ornado de balcões de alvenaria em forma de graciosas colunas, tão do gosto dos antigos mouros, esse terraço oferecia excelente posto de observação, O espião conservou-se abaixado e tudo presenciou, inclusive o esconderijo do livro venerado pela família.

Alguns dias depois, plenamente informado de todos os passos e atos de Silvério Fontes Oliveira, apresentou-se o espião aos seus inquisitoriais chefes e lançou a denúncia terrível, cujas repercussões ainda nos dias presentes lhe torturam a consciência, visto que ainda se debate o seu Espírito contra os abomináveis complexos que tal vileza ocasionou para seus destinos futuros.

Silvério Fontes Oliveira — denunciava o servo traidor —, que se afirmava fiel à Santa Igreja, que se batizara em ato solene, recebendo as puras águas lustrais; que recebia, periodicamente, a sagrada Eucaristia, atraiçoava os juramentos pronunciados, como a confiança da mesma Igreja, pois continuava praticando o judaísmo, não apenas dentro do próprio lar, pervertendo os filhos, que se educavam sob os cuidados de devotados religiosos, mas também chefiando uma Sinagoga oculta, como Rabino que fora, rodeando-se de cristãos recém-convertidos para a prática de mil inconveniências condenadas pela Santa Inquisição. E não era só: — a esta mesma insultava, dela maldizendo e execrando-a em casa, em presença dos filhos e dele próprio, João-José, ou durante as concentrações na Sinagoga, criticando e abominando igualmente os ilustres e abnegados representantes do “Santo Ofício”. Forneceu ainda, o delator, as necessárias informações para ser colhido o flagrante de heresia e desrespeito à autoridade nacional. 
E nada esqueceu que pudesse acirrar o furor dos inquisidores, que, sedentos de sangue e represálias, se banhavam em satânico prazer sempre que lhes fosse dado estender as garras para triturar indefesas criaturas, cujo crime único seria possuir crença religiosa diferente daquela que seus algozes entendiam ser a única verdadeira e divina.

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