segunda-feira, 29 de junho de 2015

Dramas da Obsessão - Segunda Parte - Capítulo X


Yvonne do Amaral Pereira

Ditado pelo Espirito de Adolfo Bezerra de Menezes      


Dissemos de início que Timóteo Aboab fora Rabino, mas que, forçado a abjurar a crença dos seus antepassados, tornara-se católico romano, ou fingia sê-lo. 
Batizara-se, curvara-se a todas as exigências da Igreja, para o caso da conversão, como diariamente faziam muitos descendentes da raça hebraica. Todavia, se não é lícito impor sentimentos de quaisquer naturezas a quem quer que seja, o sagrado sentimento da fé religiosa  superior a todos os demais que empolgam o coração humano, será, com efeito, o mais difícil, senão impossível, de ser imposto. A Igreja, impondo outrora o jugo das conversões violentas, raramente conseguia crentes sinceros para o seu culto. Fazia dos conversos, quando muito, adeptos hipócritas, agregados por conveniência, porquanto os desgraçados, perseguidos até à desesperação, aceitavam o adotarem o Catolicismo, abjurando a crença que lhes era própria, na esperança de viverem em paz e salvaguardarem a vida e a honra da sua descendência, o que nem sempre conseguiam, pois a perseguição continuava por suspeitas de infidelidade à crença adotada. 
No íntimo, porém, a maioria desses convertidos detestava não apenas a Igreja como até o próprio Cristianismo, ao qual não compreendia senão através dos feitos abusivos da clerezia, muitas vezes mais herege do que mesmo aqueles a quem perseguia. Quando muito, os mais sagazes e pensadores dentre os convertidos, portadores de boa vontade e também habituados ao jugo farisaico da sua própria grei, faziam ao Cristianismo, que não compreendiam, justiça idêntica à que faziam ao profetismo de Israel, discernindo que — assim como o farisaísmo judeu corrompera a verdadeira crença de Israel, ultrajando-a com a lama das paixões pessoais, exercendo-a até mesmo com finalidades políticas, incompatíveis com a respeitabilidade e doçura dos santuários, assim também o clericalismo católico-romano desfigurara a legítima essência cristã, por lhe assentar o vírus de arbitrariedades e crimes, que em seu nome cometia, contrariando-lhe os princípios e as finalidades. O doutor Timóteo, contudo, não era dos que faziam tal justiça. 

E conquanto até então não se revelasse um mau caráter na verdadeira expressão do termo, era certo que os longos infortúnios, as desgraças suportadas em silêncio, as humilhações e mil desassossegos cavaram diariamente, em seu coração, a revolta sombria e intransigente, o abismo irredutível entre os seus próprios sentimentos de israelita e o Cristianismo, responsabilizando, portanto, a Doutrina do Cristo pelo mau uso que dela faziam pretensos adeptos.

Da mesma, infinitamente mais hereges e nocivos à Humanidade do que os próprios a quem torturavam para converter. E, assim se portando, mais o antigo Rabino se devotava à sua primitiva crença, continuando a praticá-la ocultamente, não obstante a conversão ao Catolicismo e à prática exigida pelos luminares clericais.

Ora, mau grado à vigilância dos inquisidores, existia em Lisboa uma sinagoga exercendo funções quase normais. Aparentemente, tratava-se de residência particular, com acomodações para comércio, e realmente ali existia abastada família judaica, considerada, havia muito, realmente convertida à fé católica romana. Entretanto, aos sábados realizavam-se ali cerimônias do rito hebreu e comumente falava à cátedra o antigo Rabino Aboab. E isso mesmo levavam a efeito, os pobres hebreus, depois de terem assistido a missas, pela manhã, de se aspergirem com“agua benta” e receberem as respectivas bênçãos do arcebispo e seus coadjuvantes. As reuniões, no entanto, somente se realizavam à noite e eram pouco frequentadas, a fim de não levantarem suspeitas. 

Os fiéis se obrigavam ao revezamento, para que mais sutilmente todos se permitissem ao culto que amavam. Então, discutiam os assistentes pontos importantes das Escrituras ou do Talmude e programas de defesa contra as hostilidades de que eram vítimas; maldiziam os cristãos, bradavam aos Céus por entre lágrimas, reclamando proteção ou vinganças contra as atrocidades que suportavam; concitavam-se à perseverança na lei de Moisés e no ensino dos Profetas; intrigavam, atiçando ódios contra os perseguidores; planejavam fugas e até conspirações e assassínios, os quais jamais chegavam a realizar, e prometiam, uns aos outros, sob solenes juramentos, por si próprios e suas descendências, o culto eterno a Israel. Na realidade, entretanto, eram inofensivos, grandemente sofredores, e longe estavam de ombrear com a maldade e a vileza de um Hildebrando de Azambuja, um João de Meio e seus comparsas comuns (22). 

Distribuíam esmolas aos domingos, à porta das igrejas, afetando uma piedade religiosa que não sentiam... e o faziam por observarem duas finalidades: — tradição do rito hebreu, que ordenava distribuição de pão aos pobres, à hora dos ofícios considerados sagrados, e exibição. Para apreciações dos seus eternos observadores, de uma virtude que conviria fazer passar por inspirada em princípios cristãos, mas que não passava de automatismo farisaico.

Espionando sempre, o novo criado João-José descobriu a sinagoga clandestina, acompanhando, imperceptivelmente, o amo nas escapadas noturnas periodicamente realizadas, pois, como sabemos, funcionava aquela cátedra mosaica a adiantadas horas da noite, graças ao rigor das circunstâncias. Desejando, porém, cair definitivamente nas boas graças dos ilustres mandatários do “Santo Ofício”, o pretenso judeu espanhol, agora espião católico, não participara seus inquisitoriais senhores da importante descoberta, esperando algo mais particular, implicando também o resto da família, dadas as vantagens existentes para as finanças próprias no fato de apontar a família toda judaizando acobertada pelo batismo e suposta conversão. 

Continuou, assim, espionando os pobres amos, os quais, supondo-o servo leal e sofredor, como eles próprios vítima de injustificadas hostilidades, nem sempre se acautelavam devidamente, como seria de bom aviso em face de um estranho admitido no convívio da família. E transcorriam os dias, cientificando-se João-José e sua mulher do que faziam os amos, do que falavam, das lágrimas que choravam, das esperanças que os reanimavam ou do desânimo que os abatia... e, no entanto, não se compadeciam deles...

(22) João de Meio — outro célebre inquisidor de Portugal da mesma época.

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