domingo, 28 de junho de 2015

Dramas da Obsessão - Segunda Parte - Capítulo VIII

Yvonne do Amaral Pereira
Ditado pelo Espirito de Adolfo Bezerra de Menezes      

Ao contrário do que se previra, passou-se a manhã daquele dia e também a tarde sem que nenhumas novas adviessem de Frei Hildebrando ou de seus agentes. A expectativa era asfixiante na residência dos Aboabs. Temiam estes que, informados da súbita partida de Joel, seus inimigos investissem represálias contra qualquer outro membro da família. Em vão entre os Salmos, cuja doçura tanto bem lhes faziam à alma, Ester escolhera algo mais reconfortante para reerguer as energias morais da família que sofria, além da expectativa torturante, também a incerteza da sorte do filho querido, que se arrojara a uma temerária aventura. 

A própria jovem, habitualmente serena e resignada, agora já não se conseguia reanimar, encorajando-se através da fé ardente depositada no Criador de Todas as Coisas e naquele doce Mestre que descera dos Céus venturosos para padecer pela regeneração dos homens. Viram-na o dia todo debilitada e arredia, sucumbida em prantos, o que levou o desalento ao coração de cada um. Joel era o seu suave anelo, a esperança e a alegria das mais caras aspirações da sua alma, e a ausência desse ser tão querido, os perigos que o ameaçariam durante a longa viagem levavam ao seu coração o temor e a angústia, deprimindo-lhe as últimas energias para continuar lutando contra a adversidade. À tarde do segundo dia, no entanto, dirigiu-se a ela o tio e disse, afetuoso e apreensivo: 

— Minha querida filha, temo por ti mais do que por nós outros, nas circunstâncias em que nos encontramos... O “Santo Ofício” de nada nos poderá acusar, Joel está bem longe e, ao demais, temos advogados junto à Corte para defender nossos direitos. Sabemos, porém, que, sem a vigilância de teu primo e com as disposições equívocas de Hildebrando a teu respeito, corres grandes riscos de sofrer surpresas desagradáveis ou mesmo vexames... Mandei atrelar a “cadeirinha” (19) a fim de visitarmos tua madrinha e deixá-la a par do que se passa... 

Há-se revelado ela nossa fiel amiga, sendo mesmo contrária ao movimento hostil continuamente verificado contra nossa raça, e já por várias ocasiões, como não ignoras, há também oferecido préstimos a teu favor... Ao demais, sendo espanhola e não portuguesa, não terá, certamente, grandes interesses em nos detestar gratuitamente, apenas para satisfazer a Inquisição, não obstante a Espanha igualmente perseguir os de nossa condição... Apelarei, portanto, para o seu coração maternal, rogando aceitar-te em sua casa até que os horizontes se desanuviem em torno de nós...

Ester era humilde e obediente. Respondeu a seguir, embora o coração se lhe confrangesse à ideia de se afastar do próprio lar: 

— Pesa-me deixar-vos em momento tão crítico, meu tio... mas se assim deliberais será porque assim será o que melhor convém... e aprovarei vossa resolução... 

Subiram para a pequena viatura, mais cômoda e usual para pequenos percursos, e partiram para a residência da Condessa Maria de Faro, em cujo caráter confiavam de todo o coração. 

A Condessa Maria era mulher de quarenta anos de idade, valorosa e digna, não existindo até então, no conhecimento público, nenhum deslize que a levasse a desmerecer do conceito que desfrutava na sociedade e na intimidade dos amigos. Espanhola de nascimento, mas consorciada com um fidalgo português, vivia desde muito em Portugal, sendo amplamente relacionada entre a nobreza e até mesmo entre a realeza. Confessava-se contrária às hostilidades infligidas aos hebreus, fossem portugueses ou estrangeiros, e, em presença destes e dos amigos íntimos, atacava com veemência as leis que estabeleciam tanta desumanidade contra criaturas indefesas. Não seria de admirar que tão digna Senhora assim se conduzisse, visto que, por aqueles atormentados tempos, muitas vozes beneméritas bradavam contra a Inquisição, censurando e até execrando as suas façanhas. 

A Condessa, porém, em verdade, era mais loquaz e leviana do que realmente sincera naquilo que afirmava e, a despeito de, realmente, não desprezar a raça judaica e dela se compadecer, não se esquecia jamais de também testemunhar considerações aos inquisidores, esmerando-se em amabilidades sempre que possível. Levando Ester à pia batismal, quando da obrigatoriedade imposta aos judeus, e defendendo, por mais de uma vez, não só a afilhada como toda a família desta dos choques circunstanciais provocados pelo fanatismo partidário, cativara de tal sorte a confiança dos Aboabs que por mais de uma vez fora também ela a sua confidente e conselheira. Quando do desejo de Joel e Saulo se transferirem para Roma, no intuito de fugirem às opressões diárias que suportavam, tencionavam suplicar-lhe o valor, ainda uma vez, para lhes conseguir a necessária licença, caso falhasse o concurso dos supostos amigos inquisidores. Entretanto, como vimos, o funesto incidente, entre estes e o primogênito da casa, transformou a programação do velho Rabino, sugerindo novos passos na via angustiosa que palmilhava. 

* * * 

A Condessa Maria de Faro reencarnada se achava, nos primeiros decênios do século XX, na pessoa sofredora e humilhada da esposa de Leonel, o suicida por quem todo o nosso penoso trabalho era realizado, ao passo que o próprio Leonel, por sua vez, conforme revelação inicial, era a reencarnação de Hildebrando de Azambuja. Para a boa compreensão da moral desta verídica história, rogamos ao leitor não perder de vista este precioso detalhe. Feito o que, continuaremos ouvindo a narrativa do Guia Espiritual de Leonel. Continuou ele: 

—Depois de receber a afilhada com visíveis demonstrações de afeto e alegria, a Condessa de Faro fê-la encaminhar-se para os aposentos que, lhe eram destinados, concedendo-lhe uma criada para os serviços particulares, tal se se tratasse de uma fidalga a quem hospedasse. 

—Aqui estarás tão bem como em tua própria casa, querida Mariana — afirmou ela à recém-chegada, por entre sorrisos amáveis, pois a digna Senhora era sempre pródiga na distribuição de sorrisos —, e nada te há-de faltar... tua presença traz-me um grande prazer... será como se aqui estivesse a minha Emília, que se foi para a Espanha após o casamento... peço-te que me consideres a tua segunda mãe... pois vejo que, com efeito, muito careces do amparo e dos afagos de um coração materno... 

Encantado, o antigo Rabino osculou-lhe a destra gratamente, bem certo de que tivera a mais feliz inspiração dirigindo-se a tão prestimosa dama, enquanto Ester se limitava a sorrir acanhadamente, o coração confrangido de incertezas. Uma vez a sós com a fidalga, o doutor Timóteo pô-la a par dos ingratos sucessos desenrolados em seu lar pela tarde do Domingo, os temores de que se via presa inclusive, confessando-lhe ousadamente os pormenores da fuga de Joel sem omitir as atitudes desde muito suspeitosas de Hildebrando em torno da jovem prometida de seu filho, concluindo por lhe desvendar o recalcitrante desejo de se transferir com a família para fora de Portugal, a fim de se precatarem contra a eterna perspectiva das desumanas perseguições. 

Talvez sentindo-se em desespero de causa, ou excitado pelos acontecimentos de dois dias antes, Timóteo estendeu ainda mais a confiança depositada na Condessa e solicitou-lhe o concurso precioso para saírem legalmente do país, de posse dos pequenos haveres que ainda lhes restavam, visto que, já idoso, impossível seria partir destituído de recursos, ao menos para se socorrer, e a família, nos primeiros tempos, em terras estrangeiras. 

Maria ouviu-o atentamente, grandemente interessada. Não o interrompeu sequer com um aparte ou um monossílabo, o que de algum modo impressionou o visitante, desconcertando-o. De quando em vez, como que aprovava com um leve sinal, um movimento de olmos ou de cabeça. E reconhecendo, finalmente, que seu hóspede terminara a ingrata exposição, advertiu, lacônica, mas veemente: 

— Regressai descansado a vossa casa, senhor Fontes Oliveira! Farei o que me estiver ao alcance a fim de vos servir... Quanto a Mariana, será um depósito sagrado para mim! Nenhuma decepção a atingirá enquanto permanecer sob meu teto! 

À noite, no entanto, Maria de Faro sentiu-se insone e agitada, forçando a imaginação no penoso labor mental de criar uma solução que, servindo aos Fontes Oliveira, também não a indispusesse com nenhum representante dos poderes civis e eclesiásticos e ainda com o Rei e 

O Inquisidor-mor, Frei Hildebrando de Azambuja. Seu desejo seria, realmente, beneficiar os perseguidos. Mas a loquaz espanhola seria muito experiente e maliciosa para se arriscar a toldar as boas relações sociais que desfrutava com a proteção a judeus recém-convertidos, que ainda poderiam decepcioná-la, e muito interesseira para se expor ao desagrado de personagens como aquelas que lhe apontavam como inimigos que teria de combater. Na manhã seguinte, por isso mesmo, muito preocupada e mal-humorada, Maria chamou em audiência particular o “escriba” do palácio, espécie de secretário da casa, dos negócios de seu marido, cujas atribuições se dilatavam ao preparo da correspondência particular de cada um, e, depois de algumas indecisões, falou autoritária: 

—Tome do necessário porque ditarei uma carta para pessoa de grande destaque social... 

O “escriba” escolheu do melhor papel de linho com timbres dourados, escudo e armas da casa; da melhor pena de pato e da mais afamada composição de tinta para escrever, dispondo-se ao delicado trabalho (20). E Maria, então, recordando Pilatos, muito digna e majestosamente sentada em sua cadeira “manuelina”, alta e suntuosa qual um trono, ditou o que se segue, alheada dos deveres para com Deus e o próximo, sem suspeitar que criaria, com a traição contida nessa carta, um drama intenso e apavorante, cujas consequências lamentáveis se estenderiam por quatro longos séculos de lágrimas, infortúnios e crimes para outrem e para si, e que a mesma missiva forjaria um elo que enredaria a si própria e ao seu destinatário, elo moral cuja solidez não lhe seria jamais possível romper; e que atada àquele pelas leis de causa e efeito e repercussões conscienciais, palmilharia, futuramente, um tormentoso calvário de provas e expiações, até que expungir conseguisse, da própria consciência, as sombras acusadoras que a deprimiam. Ditava, pois, enquanto o paciente funcionário fazia correr a pena, certo de que uma infâmia a mais ali se praticava, mas isento de responsabilidades conscienciais, porque era apenas um servo, pouco menos que escravo, obedecendo ao seu Senhor:

—“Reverendíssimo Dom Frei Hildebrando de Azambuja — Venerável Inquisidor-mor da Santa Inquisição de Lisboa. Peço vossa bênção com admiração, respeito e suma devoção. Deus seja convosco. Salve, Senhor!

Um fato extraordinário verifica-se no momento em Lisboa, tendo-me por testemunha eventual, o que me impele a dirigir-me a Vossa Reverendíssima, a fim de melhor provar a minha fidelidade incondicional à Santa Inquisição. 

Desde ontem, Reverendíssimo Hildebrando, hospeda-se em minha casa, sob minha tutela temporária, a menina Mariana Fontes Oliveira, vossa paroquiana e pupila espiritual, da qual sou madrinha de batismo por um ato de piedade permitido e aprovado pela nossa Santa Igreja. Trouxe-a o seu tio Silvério Fontes Oliveira, rogando-me aceitá-la a fim de salvaguardá-la de perseguições por ele consideradas iminentes sobre toda a família, mas as quais eu apenas entrevejo no cérebro obumbrado de heresias dos mesmos supostos perseguidos. 

Não desejo, Reverendíssimo, indispor-me com uma instituição tão generosa e benemerente como entendo ser a Santa Inquisição, e por isso participo-lhe não somente a presença da menina Mariana em minha casa, sem autorização de Vossa Reverendíssima, como ainda da pretensão de toda a família em exilar-se para Roma, de qualquer forma, sendo que o primogênito da casa, desde a madrugada de anteontem, ausentou-se de Lisboa... pois o próprio pai, confidencialmente, narrou me os acontecimentos que ocasionaram a sua partida, acontecimentos que muito lamento, julgando-os ofensivos a Vossa Reverendíssima Conquanto eu estime os Fontes Oliveira e até lhes deseje todo o bem possível, encontro-me no dever de escrever a presente epístola a fim de me não considerar cúmplice de atos reprovados pela jurisdição do Estado como da Igreja, coisa grave, da qual não me desejo tornar responsável. Rogo à Vossa Reverendíssima conselhos paternais sobre o que farei da menina Mariana, como sobre todo o momentoso caso. 

Uma hora depois de expedida a carta, Hildebrando de Azambuja era recebido pela Condessa em audiência particular, entretendo-se ambos em secreta conversação durante cerca de duas horas. Ao despedir-se, o religioso osculou a destra da inconsequente fidalga, exclamando enfaticamente: 

— A Circunscrição nº... da Santa Inquisição de Lisboa agradece pela minha voz, Senhora, a valiosa cooperação que acabais de conceder ao decoro e à respeitabilidade da Igreja... 

Retirando-se, Dom Frei Hildebrando de Azambuja tomou imediatas providências para que Joel fosse detido antes de entrar em Roma, localidade em que estaria a coberto de ataques pessoais tão comuns em Lisboa, e de onde, portanto, não seria possível à Inquisição recambiá-lo com facilidade para Portugal. Era, como vemos, o terceiro dia da partida do jovem Aboab e Hildebrando, ressentido pelo descaso e pela desobediência à sua pessoa, e cogitando da melhor forma de castigar o ardoroso mancebo, ignorava, no entanto, a sua partida, visto que realmente não mandara espionar nem sequer concebera a possibilidade do arrojo de uma fuga. Á tarde desse dia, em que visitara a Condessa, portanto, partiu de Lisboa uma escolta armada, constante de cinco homens, à cata do fugitivo e do pagem, legalmente documentada e com ordens rigorosas de prisão ao infrator, devida-mente assinadas e registradas, o que lhe emprestava um irresistível poder. 

Entrementes, Maria de Faro penetrara os aposentos da afilhada e, demonstrando, no semblante grave, insólita frieza, que na véspera se julgaria inconcebível, ordenou sem maiores explicações: 

— Prepare-se, menina Mariana, a fim de retornar ao domicílio de seu tio... Não me será lícito recebê-la como pupila sem uma ordem do juizado e do arcebispado... Terão de me nomear, primeiramente, tutora perpétua, por ordem de El-Rei nosso Senhor, para que me seja viável a sua reeducação ao critério das nossas leis religiosas... uma vez que até agora a menina somente há convivido com seus ascendentes hebraicos, não obstante a instrução recebida sob patrocínio da Igreja... 

Timidamente, muito pálida, Ester retorquiu, os olhos marejados de lágrimas: 

— Senhora, eu sou cristã sincera... Amo a Cruz do Senhor Jesus com a veneração do fundo da minha alma... 

A Condessa pareceu não ouvir e retirou-se sem responder. Uma aia acompanhou de volta a formosa hebreia, deixando-a entregue ao tio. Sem quaisquer explicações fornecidas pela Condessa, Aboab houve de se orientar pelos relatos da sobrinha, porquanto aquela dama, até então amável e prestimosa, não se permitira sequer, agora, a consideração de uma carta esclarecedora da recusa em conservar a afilhada, quando na véspera prometera gentilmente protegê-la. 

Ansioso e incompreensivo e nem confiando no que lhe transmitira Ester, o pobre homem tornou ao palácio no intuito de se entender melhor com a ilustre dama, pois temia haver contribuído, de qualquer forma, para desmerecer no seu conceito, e, insistente e perseverante como soem ser os de sua raça, solicitou nova audiência, aguardando, porém, pela resposta, cerca de duas horas, findas as quais apenas obtivera de um criado descortês esta lacônica decisão: 

— A Senhora Condessa não concede audiência no dia de hoje... 

Sem saber o que pensar e prevendo algo desagradável, o antigo Rabino tornou ao lar, forçando, no íntimo do coração, a esperança de que Maria de Faro houvera mandado explicações por algum especial mensageiro que dele se desencontrara. Mas, em chegando ao próprio domicílio encontrara antes um mandado do “Santo 

Ofício”, para que ele e os filhos comparecessem, ainda aquela tarde, à sede da Circunscrição, a fim de prestarem esclarecimentos urgentes quanto à tentativa de afastamento, de Lisboa, do jovem Henrique Fontes Oliveira, sem a devida autorização do legado do bispado. A cerimônia, não obstante os aparatos e terrores próprios da época, decorreu normalmente. 

Toda a família, a uma só voz, asseverou ignorar a súbita resolução do jovem, pois ele apenas se afastara para o campo, acompanhado do seu pagem, em busca de paisagens para os quadros que tencionava pintar; que, efetivamente, mantinha intenção de se transferir mais tarde para Roma, a fim de aperfeiçoar estudos artísticos, mas que, no momento, apenas perambulava pelas províncias a fim de se inspirar para a obtenção de motivos para os seus quadros... 

Não seria impossível que assim fosse, ao entendimento da Inquisição. Mas o testemunho da Condessa de Faro, cuja carta denunciadora a Frei Hildebrando fora do conhecimento dos juizes e acusadores, fora também levada em muita consideração, para que a palavra dos depoentes prevalecesse. Hildebrando encontrava no argumento excelente ensejo para suas costumeiras façanhas inquisitoriais e também para desforras contra aqueles a quem realmente nunca estimara. 

Os depoimentos foram, pois, considerados de má fé. Contudo, tais deslizes perante as leis do “Santo Ofício” não eram passíveis de prisão e sim de extorsivas multas e indenizações. Houve, portanto, Timóteo, ainda uma vez, de depositar, nos cofres públicos ou nas mãos ávidas dos inquisidores, boas quantias em ouro, o que o reduzira à mediocridade de fortuna, carecendo mesmo até de pôr à venda muitas das preciosidades que possuía, tais como pratarias, cristais, porcelanas, objetos de arte, jóias, etc. 

Não obstante, a vigilância em torno dele e da família recrudesceria — sentenciaram as autoridades — e qualquer outra infração às leis vigentes de tão egrégio tribunal seria punida com a prisão e o respectivo processo. Quanto ao jovem Henrique, ao encalço de quem partira uma pequena tropa, seria preso e processado, porquanto, ainda que se ausentasse de Lisboa apenas para pequena viagem de recreio dentro de Portugal, ele o fizera sem se prevenir com a devida licença das autoridades competentes. Hildebrando, porém, estava certo, como sabemos, de que Joel — ou Henrique — realmente fugira graças à altercação entre ambos à mesa de Fontes Oliveira, conforme as informações fornecidas por Maria de Faro. 

E, apoiando-se na legalidade inquisitorial, pretendia agravar o fato, dele valendo-se a fim de servir as próprias pretensões: — em primeiro lugar, a sua mesma crueldade de inquisidor insaciável, que jamais se eximia de perseguir e maltratar; em segundo — apossar-se de Ester, por quem se sentia incendiar de desordenada paixão, e vingar-se do jovem Henrique, a quem jamais admirara e por quem se reconhecera invariavelmente tratado com altivez e menosprezo. Assim foi que, sem que o infeliz Timóteo de nada desconfiasse, introduziu Hildebrando de Azambuja, no solar hebreu, um espião de sua inteira confiança, procedendo, porém, para tanto, sutil e cautelosamente. O leitor certamente não conceberá o quanto de humilhante e exasperador existia em torno de um indivíduo ou de uma família considerados suspeitos de quaisquer faltas pela Inquisição. 

Tornavam-se, por assim dizer, execrados pela sociedade, que afetava o desprezo demonstrado como não o faria ao pestoso, cujo contacto todos temem e do qual se afastam com asco. Entravam a sofrer a angústia do isolamento social. Desertavam de sua casa os amigos e os comensais mais íntimos. Na rua, davam-lhe as costas, ou trocavam de calçada, quando os encontravam, aqueles que dantes lhes apertavam as mãos e lhes deviam favores. Em muitos casos, os desgraçados perdiam até mesmo o direito de suprir a sua despensa doméstica, porque os marchantes e quitandeiros suspendiam o fornecimento, temerosos de se envolverem em processos idênticos como simpatizantes do judaísmo ou arrolados como testemunhas no tribunal da fé. E nem se julgue que os correligionários de crença corriam a socorrer o perseguido, porque ninguém mais inimigo de um hebreu convertido, mas suspeito de infiel à fé católica, do que outro hebreu convertido, mas não suspeito, ou outro não convertido (21).

(19) Meio de transporte individual muito antigo, que consistia em uma cadeira fechada qual pequeno carro sem rodas, mas provido de dois varais de frente e dois As costas, permitindo a dois homens ou dois animais, a ele atrelados, carregá-lo balouçando-o suavemente no espaço.

(20) Existiam nessa época — (século 16) — tintas coloridas muito vivas e variadas, para a escrita particular, inclusive uma espécie de purpurina dourada, para cartas destinadas a personagens gradas, para a literatura sacra e a poesia. 

(21) A Inquisição perseguia com verdadeiro furor os judeus chamados Cristãos novos”, suspeitando-os, às vezes sem razão, de infiéis aos compromissos assumidos com a Igreja, relapsos na fé católica.

Nenhum comentário:

Postar um comentário