quarta-feira, 24 de junho de 2015

Dramas da Obsessão - Segunda Parte - Capítulo II

Yvonne do Amaral Pereira
Ditado pelo Espirito de Adolfo Bezerra de Menezes


 — Pelos meados do século XVI, já a Inquisição em Portugal estava definitivamente estabelecida. Depois de longas e mui fastidiosas dêmarches e controvérsias dos governos do Reino com os poderes eclesiásticos de Roma, foi oficializado esse célebre tribunal, meio religioso, meio civil, cujos fins desumanos, inconfessáveis, são ainda hoje a mácula que enodoa não apenas o gesto da Igreja, que em hora infeliz consentiu patrociná-lo, mas também os poderes civis que o requereram e adotaram. 

A Inquisição, chamada, pela primeira vez, na Espanha, o. “Santo Ofício”, desde muito, segundo reza a História, fora estabelecida na França (século XIII), onde não se arraigou, como era de esperar, com a violência observada em outros países do Sul da Europa, isto é, na Espanha, em Portugal e na Itália. Em Portugal, onde se verificaram os acontecimentos que evocamos, coube ao Rei Dom João III, chamado o “Piedoso”, graças ao fanatismo religioso de que dava provas, ativar as negociações junto de Sua Santidade, o Papa Paulo III, a fim de oficializa-la, decretando suas funções com plenos poderes, pois compreendeu esse cruel soberano as grandes vantagens de ordem econômica resultantes de uma perseguição sistemática, oficial, contra os chamados “hereges”, ou judeus, tão altamente colocados no comércio como na indústria, uma vez que a perseguição incluiria a confiscação de suas fortunas e bens imóveis. 

Jamais em outros países da Europa agiu a Inquisição, contra os judeus, com tão cruel violência como na Espanha e em Portugal. Esse tribunal civil-religioso, como vemos, era estabelecido e patrocinado pelas leis religiosas, mas firmado também em poderes civis, ou nacionais, e por isso tanto servia à Igreja, ou aos seus representantes, como ao Estado. No todo não passou de politicagem torpe, à sombra da qual as mais cruéis, desumanas e vergonhosas arbitrariedades, os mais atrozes crimes eram perpetrados. O recurso de que se lançava mão para exercer-se tal poder era a heresia. 

A Inquisição tinha por finalidade perseguir os hereges, ou aqueles que assim eram considerados pelos governantes fanáticos e os agentes do Papado. Em Portugal e Espanha, eram os hebreus, ou judeus, os mais perseguidos. Mas é bem verdade que por toda a parte se perseguia por qualquer motivo e também sem motivo algum, por simples questões pessoais, levando-se o adversário às penalidades máximas do “Santo Oficio” sempre sob acusações de heresias ou de conspirações, permitindo-se, assim, livre curso às ambições, ao ódio, às vinganças, etc. (11)

Pertencendo à classe mais aprimorada em haveres de toda e qualquer comunidade da Europa, mesmo acima de muitos vultos da nobreza, em matéria financeira, os judeus se viam perseguidos pelo Estado incessantemente, o qual lhes confiscava os bens para aumentar os cofres públicos, ampliar o conforto pessoal e o fausto da realeza e incentivar este ou aquele empreendimento de benefício geral, ou público, muito embora tal dispositivo nem sempre constasse da lei oficializada. Seria um roubo que o Estado cometia, um assalto acompanhado de crimes e abomináveis crueldades, pois os judeus eram classe honesta e seus haveres adquiridos através de esforços heróicos e perseverante trabalho. 

Prendiam-nos desde que fossem denunciados por este ou aquele, cidadão, muitas vezes provindo a denúncia de torpes conciliábulos de conventos e paróquias e gabinetes governamentais; processavam-nos sob formas ditas “legais”, torturavam-nos a pretexto de convertê-los à fé cristã e salvar suas almas; queimavam-nos vivos em fogueiras levantadas nas praças públicas, arrasavam, algumas vezes, suas propriedades, depois de saqueá-las; aviltavam suas esposas e filhas, antes de supliciá-las; esqueciam-nos para sempre no segredo de masmorras solitárias como túmulos, cometiam, enfim, toda a espécie de vilezas e atrocidades, de que hoje o mundo se envergonharia — e tudo executavam em nome da religião cristã e à sombra da Cruz redentora dAquele que repetira aos seus contemporâneos:
— “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei!” 

Ora, precisamente em Lisboa, no bairro hoje denominado Mouraria, durante o reinado de Dom João III (12) e quando as férreas leis inquisitoriais exerciam com violento vigor as suas arbitrariedades, erguia-se um solar de belas proporções, rodeado de altos muros de pedras superpostas, como fortificado, cujos portões pesados antes se diriam os batentes de uma pequena fortaleza. Tratava-se de agradável vivenda ornada de pitorescos jardins, que muita inveja causava a mais de um fidalgo ou luminar do clero que por ali se aventurasse em cavalgadas felizes nos dias de maior ociosidade; de fartos pomares, de aviário rico, bosquete de oliveiras e tamarindeiros frondosos e pitorescos, nascentes de água pura e cristalina, que à mansão emprestavam semelhanças patriarcais, recordando a lendária Judéia ou a singela Galiléia, tão bem descritas nos Evangelhos do Senhor.

Ali residia o ex-Rabino, nascido Timóteo Aboab, em Portugal, hebreu por tradição, assim chamado e conhecido por seus compatriotas e irmãos de crença israelita, mas a quem as leis do fanatismo religioso, encarnadas na personalidade cruel do Rei Dom João III, durante uma das muitas perseguições verificadas contra os indefesos súditos de raça hebréia, obrigaram à conversão e ao batismo da fé católica romana sob o nome de — Silvério Fontes Oliveira. 

O Silvério fora caprichosamente arrecadado do santo do dia do batismo, enquanto o Fontes Oliveira escolhido fora pelo próprio batizando, sob inspiração das preciosas fontes de água pura existentes em seus jardins e das oliveiras frondosas que lhe emprestavam sombras protetoras para a sesta.
O novo cristão Silvério, ou o ex-Rabino Timóteo Aboab, era riquíssimo, como a maioria dos seus irmãos de raça, industrial e banqueiro, envolvendo-se em elevadas transações comerciais mesmo com o estrangeiro. A par disso, como doutor da lei israelita, que era, possuía excelente cultura intelectual, falando alguns idiomas diversos do seu hebráico tradicional e vários dialetos orientais. 
Diziam dele que continuava exercendo o ministério da sua grei religiosa, mesmo depois da suposta conversão à Igreja de Roma, isto é, continuava como sacerdote judeu entre seus correligionários, em sinagogas clandestinas, mas muito bem freqüentadas pelos adeptos de Moisés e dos Profetas do reino de Israel. 

Fora ele casado com uma dama graciosa e muito formosa, espanhola de nascimento, mas descendente de árabes legítimos, cujo nome seria Arammza. Desse consórcio felicíssimo três filhos varões haviam chegado ao mundo, para orgulho do respeitável Rabino, cujo coração se dilatava tanto, contemplando a prole masculina, como se teria dilatado o coração do patriarca Jacoh contemplando os seus doze rebentos varonis, que se ramificaram nas doze tribos vitoriosas e heróicas de Israel (13). 
Seus nomes eram, em escala decrescente — Joel, Saulo e Rubem. Na mansão da Mouraria vivia ainda uma sobrinha de Timóteo, a formosa e meiga Ester, cujos pais haviam sucumbido sob os tratos da Inquisição, deixando-a órfã aos seis anos de idade. Quando Rubem, o filho mais novo de Timóteo, contava apenas seis meses de existência, houve uma das terríveis perseguições em Lisboa e o doutor Timóteo e esposa foram presos pelo “Santo Oficio”. Torturados, a fim de abjurarem a crença dos seus antepassados, Timóteo, visando a furtar a esposa às crueldades que presenciava e sofria, abjurou — ou fez que abjurou — a velha fé nos Profetas da sua raça e fez abjurar a esposa, aceitando, então, o batismo, a troca de personalidade social, com um nome bem português e ainda a humilhação da troca do nome dos filhos, por cuja sorte tremia de aflição no fundo do cárcere. 

Em verdade, porém, o horror e o ódio à crença dos cristãos recrudesceram em seu peito e, intimamente, no silêncio do seu coração e nas fecundas exaltações do próprio pensamento, conservava-se o mesmo fervoroso hebreu de sempre, venerador da lei de Moisés e da crença de seu povo, agora porventura com mais nobre fervor e sentidos zelos de crente ofendido na delicadeza do próprio ideal. Todavia, fora em vão o sacrifício no tocante à pessoa de Arammza. Não resistindo aos tratos sofridos na prisão e tão-pouco ao desgosto pela abjuração, que considerava ofensiva ao Deus de Israel, como à sua honra pessoal, a formosa judia espanhola deixou de existir, ficando inconsolável o pobre esposo e na orfandade os três pequenitos cujos nomes, após o batismo imposto pela catequese inquisitorial eram — Henrique, José e Joaquim, respectivamente. 
Igualmente batizada, Ester passou a chamar-se Mariana, prenome bem português, que lhe fora aplicado no intuito de encaminhá-la mais satisfatoriamente à salvação eterna... segundo a hipócrita convicção daqueles que lho impuseram. Nestas páginas, não obstante, continuaremos a tratar nossas personagens pelos seus nomes de origem, uma vez que, liberais que deveremos ser, respeitaremos o direito que têm eles, ou quem quer que seja, de se nomearem conforme lhes aprouver.

(11) A Inquisição era tribunal eclesiástico, estabelecido pela Santa Sé, mas firmado sobre os poderes civis. Em Portugal, como é sabido, o governo usou de grande insistência para que a Santa Sé permitisse o seu estabelecimento. Os inquisidores geralmente eram os próprios religiosos: — bispos, padres, frades, etc.

(12)Dom João III reinou de 1521 a 1557.

(13)Os doze filhos de Jacob, dos quais se originaram as doze tribos de Israel, são: — Rubem, Levi, Benjamim, José, Efraim, Manassés, Zabulon, Issachar, Gad, Dan, Natthali, Asser —. segundo reza o Velho Testamento. (Deuteronómio, capítulo 38.)


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