quarta-feira, 24 de junho de 2015

Dramas da Obsessão - Segunda Parte - Capítulo I

O Passado


Yvonne do Amaral Pereira
Ditado pelo Espirito de Adolfo Bezerra de Menezes

Cumpriria cientificar-me do passado espiritual das personagens implicadas no drama que se apresentava complexo e muito grave, a fim de me habilitar para uma favorável solução do mesmo. Deixei, portanto, os delinquentes sob a guarda protetora dos responsáveis, espiritualmente, pelo Centro que os hospedava, e afastei-me, tranquilo, convidando Roberto a me acompanhar num giro indispensável pelo Espaço, à procura de informações seguras e rápidas.

Certamente que, para inteirar-me dos remotos contratempos que criaram o antagonismo entre os meus pupilos do momento, não seria obrigatório o recurso de varrer as ondas luminosas do éter, em busca de arquivos informativos que detalhadamente esclarecessem o de que necessitaríamos para um trabalho eficiente de reeducação dos mesmos. Tal processo, em sendo fecundo e seguro, mesmo belo, é lento e penoso, mesmo para as possibilidades de um Espírito algo esclarecido. Impõe a necessidade de técnicos selecionadores, de demarcações rítmicas das ondas da luz, casando-as com os nossos padrões vibratórios, para que o serviço da boa captação não sofra deficiências para as análises sobre os acontecimentos a serem examinados.

Conforme não mais ignoram os estudiosos e pensadores do Espiritismo, as poderosas sensibilidades etéricas, as ondas luminosas disseminadas pelo Universo, o fluído universal, enfim, sede da Criação, veículo da Vida, possui a prodigiosa capacidade de fotografar e arquivar em suas indestrutíveis essências os acontecimentos desenrolados sob a luz do Sol, na Terra, ou pela vastidão do Infinito. A História da Humanidade, portanto, estaria arquivada em imagens e sons pelo infinito a fora, e, como a da Humanidade, necessariamente a história de cada individualidade, particularmente. Rever, portanto, o que passou, rebuscando imagens e cenas fotografadas nas “ambiências etéricas”, não será, para um Espírito trabalhador, tarefa muito rara, embora penosa. Comumente esses Espíritos o realizam para estudos científicos e filosóficos, lições profundas e muito eruditas para as almas fortes que se dedicam a cursos elevados na vida espiritual, para análises magníficas, que somente ao mundo invisível interessam, por enquanto. 

Para o caso de Leonel, no entanto, seria dispensável tal recurso, visto que poderíamos contar com outros processos mais fáceis, igualmente seguros. Poderíamos, por exemplo, extrair dos arquivos mentais do próprio Leonel, em operação psíquica melindrosa, o seu passado reencarnatório, particularizando episódios em que se visse em relações com aqueles que, no momento, eram os seus obsessores. Poderíamos tentar as mesmas informações com os seus quatro perseguidores, obrigando-os a um retrocesso parcial ao pretérito para extrair da sua memória, ou consciência (arquivos mentais do perispírito), as recordações informativas, exatas, uma vez que, na precária situação em que se achavam, não lograriam energias para evocarem voluntariamente esse passado, com as minúcias de que precisaríamos.

Repugnava-nos, todavia, torturar tanto a todos eles, pois forçá-los ao amargor do retrocesso da memória seria excitar-lhes o sofrimento, aguçando-lhes as raivas, abalando-lhes as faculdades carentes de bálsamos e consolações. Restava-nos, porém, o formoso Espírito de Ester, que nos procurara naquela mesma emergência, dispondo-se a auxiliar os trabalhos com valioso concurso em torno dos seus entes amados e prontificando-se a tudo o que dela exigíssemos. Mas nós a víamos tão angelical e adorável, tão docemente humilde e encantadora, que nos detivemos no desejo de solicitar-lhe o favor de uma confidência minuciosa sobre o passado dela própria e das duas falanges litigantes, desencorajados de a levar a reacender no próprio ser episódios vividos entre dores e opróbrios, que antes deveriam ser para sempre esquecidos. 

Deliberamos, então, recorrer ao Guardião hierárquico de Leonel, certos de que, por mais desgraçada e revel que seja uma individualidade, sempre será exato que contará com fiéis amigos do plano invisível, prontos a beneficiá-la e assisti-la, desde que ela própria consinta em ser auxiliada através da boa vontade em progredir.
Prontificou-se ao relatório solicitado o venerando mentor espiritual e, bondosamente, qual o emérito professor na cátedra elucidativa, foi dizendo, como em prelúdio às narrações que viriam a seguir:

— “O nosso querido Leonel necessitava, meus amigos, realmente, da amarga lição que, finalmente, a lei das causas e dos efeitos o levou a experimentar. Desde tempo remoto até a atualidade, ele se vem inspirando em diretrizes corrompidas, arraigado a paixões inferiores, sem boa vontade para a emenda em princípios regeneradores, apesar dos vossos esforços para conduzi-lo à marcha legítima para o Bem, O orgulho incorrigível, os instintos inferiores, a indiferença pelo respeito a Deus e às leis da Vida e da Morte, a permanência intransigente nas ínfimas camadas da moral, as consequências sempre desastrosas daí decorrentes, bradavam por um corretivo mais enérgico, uma punição que, levando-o à dor legítima, dispusesse suas faculdades a atitudes mais sóbrias, permitindo-lhe raciocínios a bem de si mesmo. Variados ensejos para o progresso nós lhos vimos concedendo dentro de período milenar. 

Há menosprezado tudo, conservando-se fiel ao antagonismo com a luz. Vezes várias fizemo-lo reencarnar em ambientes honestos, no seio dos quais lições e exemplos educativos jamais escassearam. A tudo repudiou, desgostando pais, ferindo irmãos, atraiçoando amigos, negando-se ao dever, reincidindo em faltas graves, afastando-se de Deus!
Fixado, assim, num círculo que se tornava vicioso, urgia algo em seu socorro através de um corretivo que para sempre lhe sacudisse as forças psíquicas para novos rumos.
Qual o corretivo, porém, a aplicar? ... Que punição bastante justa, castigo assaz sábio para, corrigindo-o, não reverter em impiedade por parte da lei que os permitisse? ...

De fácil solução seria o problema, aplicado tantas vezes entre os endurecidos no mal, pela mesma lei: —deixá-lo inteiramente entregue ao seu livre arbítrio! Afastarmo-nos dos seus caminhos, não mais o aconselhando durante o sono corporal e tão-pouco tecendo em torno dos seus passos barreiras que anulassem os múltiplos malefícios com que teimava em barricar a própria evolução moral espiritual. Deixarmos de interferir nas reencarnações, abandonando-o à própria responsabilidade, sem nossas inspirações e assistência, a fim de que sentindo, finalmente, a solidão interior envolver o seu espírito, ele se humilhasse perante si mesmo e procurasse reencontrar-nos, com boa vontade para a emenda e a conquista do progresso, impulsionado pelos aguilhões da dor.

Foi o que fizemos nesses quatro séculos, quando suas desordenadas expansões exorbitaram dos direitos de cada um dentro das sociedades terrenas. Sim, desde há quatro séculos, quando, reencarnado à sombra da Cruz do Enviado de Deus, depois de prometer, no Espaço, labores benévolos a favor da Doutrina e da Igreja a que desejou servir, do poder que ambas exercem sobre os homens, abusou, aviltando-as com os crimes que praticou, tendo-as por desculpa e delas se servindo como arma irresistível na prática de abominações! ”

Fez uma pausa o erudito mentor, que se diria antigo patriarca oriental, e continuou após, salmodiando vibrações dulcíssimas, só compreensíveis à mentalidade de um desencarnado, como ele:
— “A história do meu pobre Leonel é como a de tantas outras ovelhas revéis do aprisco divino, o próprio drama encenado e vivido pela Humanidade em litígio com as próprias paixões. Há períodos na existência de um homem, como de uma sociedade e um povo, em que seus erros tanto transvazam da órbita razoável num planeta de provas e expiações que o ricochete entra a puni-los incessantemente, com todo o cortejo das atrozes consequências criadas pelos próprios atos. É quando estão entregues a si mesmos, agindo inteiramente em liberdade, sem nossa intervenção em nenhum ato de suas vidas. Diante de tal punição — o viverem entregues a si mesmos — não resistirão por muito tempo aos convites da emenda. 

Seus excessos atrairão situações de tal forma anormais, desequilíbrios tão pungentes na marcha irrefreável das existências, que outro recurso não encontrarão, a fim de remediá-los, senão a submissão às equitativas leis da razão e da justiça... o que quer dizer que buscarão, voluntariamente, o caminho do Dever, do qual jamais haviam cogitado. A história messiânica do Filho Pródigo não poderia ser melhor imaginada, para retratar a marcha da Humanidade, do que o foi por nosso Mestre Jesus Nazareno.

Eis, pois, o corretivo supremo da lei: —abandonar os rebeldes e endurecidos a si mesmos, não os assistir sequer com a inspiração, quer no estado terreno quer no espiritual, tal como o pai de família, que deixou partir o filho mais novo, certo de que as duras experiências, consequentes das próprias irreflexões, bem cedo o levariam à emenda dos costumes, à regeneração definitiva.
Deteve-se novamente o nosso ilustre interlocutor. Compreendemos que reunia recordações revolvendo arquivos mentais para nos confiar particularidades de um drama que sacrossantos deveres de assistência ao próximo nos autorizavam conhecer, mas, passados alguns instantes, elevou novamente o seu diapasão mental, que entendíamos por fraseado escorreito, e prosseguiu:

— Fui judeu nos tempos do amorável mártir de Jerusalém, recebendo então, de suas próprias palavras e exemplificações, a luz dos ensinamentos eternos, e também obtendo a honra de morrer sacrificado pelo amor da sua Doutrina, pouco depois da sua retirada dos planos terrestres. Apaixonado por seus ensinamentos, como Espírito impus-me o dever de auxiliar antigos compatriotas meus à conversão ao vero Cristianismo, tarefa árdua, que me há extraído lágrimas e muitas amarguras do coração. Não sou, portanto, senão pequeno mentor da falange litigante que acabais de conhecer, isto é, Leonel e família, falange da qual me afastei, temporariamente, por ordens superiores, dada a rebeldia com que se conduziam, mas dos quais me aproximarei desde que demonstrado seja o desejo do progresso e da reconciliação com o Bem.

Os sombrios acontecimentos que se desenrolaram num período de quatro séculos, em reações contínuas entre o Espaço e a Terra, e que tiveram como personagens as duas famílias que conheceis, se originaram dos seguintes feitos de uma e de outra...
E então o Patriarca iniciou a narrativa, enquanto eu e Roberto, presos às suas vibrações mentais, entrávamos em seus pensamentos, assistindo, destarte, aos episódios, com tanta precisão e clareza como se comparsas também fôssemos das cenas evocadas. Mas, para que ao leitor seja permitido mais facilmente investigar minudências na moral dos fatos em apreço, descreveremos o a que então assistimos, com redação nossa, esforçando-nos em esclarecimentos que induzam a análises idênticas em numerosos dramas terrenos que diariamente surpreendem a sociedade. 

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